Natais e seus Tempos

Por: Maria Luiza Salomão

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Busquei meu bebê-natal, o que ainda sou. Saí à luz de uma manhã de domingo. Meu pai chegara sábado à noite, na cidade em que minha mãe o esperava a me esperar...

Sufoquei, quis sair do estreito lugar, mas uma força parecia me impedir, parede de carne...

Minha mãe serenou com a chegada do meu pai. Passamos a madrugada de sábado esperando...minha mãe...meu pai... longas horas...meu pai e o ginecologista, seu amigo, na conversa (era assim antigamente). A madrugada toda...todo mundo esperando...eu também, encolhidinha, até que...o tsunami...chegou a hora...e não era dezembro, mas era época de carnavais. ...

O bebê cresceu e, crescidinha, espero a carroça do papai Noel que vem trazendo o meu bebê...ele apontava a uns cinco ou seis quarteirões lá em cima, mas cá embaixo a gente ouvia o carnaval da criançada, a seguir a carroça cheia de presentes... eu acreditava mesmo que meu presente viria puxado por um cavalo cansado, meio feioso, trotador. O papai Noel era negro e magro, de barba branca, suava naquela cruel roupa vermelha, no calor infernal ituveravense. O bebê que ele trazia era de plástico, o primeiro a ser industrializado, então. Lembro-me de poucos presentes assim, emocionantes. Mas a alegria vinha contaminada de uma tristeza estranha: não sei se sentia o peso da criançada toda me olhando pegar o presente...se desconfiada de que talvez não viesse o que queria tanto...se teria certeza se o que eu queria era mesmo o que estava para desembrulhar... acreditava que o presente que o bom velhinho trazia era exatamente o que tinha pedido para meus pais...mas seria aquele o presente – mesmo - que eu queria?

Tantos natais. Uns tristes. Outros alegres. Por que tristes? Por que alegres? Natal cria cicatrizes fortes e indeléveis... cria demandas e expectativas, fantasias e delírios, cria desigualdades homéricas, meu Deus! Como não me apercebia dessa realidade tão desumana?

Amava a beleza dos arranjos natalinos, “a” árvore, a ideia de “bebê nascendo”, do bebê prometido, que atraía reis presenteadores em visitas noturnas; bebê com fé inabalável em um velho desconhecido e estranho trazendo presentes em um saco de cetim vermelho. A estrela sempre apontava o bebê, que acreditava que os sentimentos compartilhados eram “para sempre” nos corações trespassados, todo mundo imortal, a estrela era um cometa feliz...

Tão difícil atualizar o meu bebê, a minha criança, meu eu-adolescente, na adulta madura, hoje... Cadê a magia de reis de mundos distantes? Cadê a a Estrela Polar? Para onde aponta o cometa, hoje?

Quero um natal possível*, sem diferenças de raça, nível social, credos e culturas. Quero: 1. Sumir com todos os celulares do mundo 2. Conversar com os íntimos na celebração, olho no olho! 3. Quero que nos amemos, agora, intensamente, intransitivamente, sem adiamentos para o natal de amanhã: sem adjetivos nem predicativos.

Um Natal do eu-tu, de nós enlaçados, de coração para coração, sem objetos diretos ou indiretos. Natal de verbo substantivado: amor ******** para todos!
 

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