A Boneca de Cabelo - Conto de Natal

Por: Angela Gasparetto

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Quando criança, seu sonho era ganhar uma boneca de cabelos. Havia visto uma na mão da filha do dono da fazenda onde moravam e, depois deste dia, sonhava sem parar com aquela boneca.

Acompanhava as outras garotas com suas bonecas, fantasiava, se via penteando os cabelos delas, fazendo penteados, etc. Coisas de menina.

Até aquele momento só tinha bonecas de espiga de milho e pedia ao pai desesperada para trazer as espigas de cabelos loiros.

“Não quero as de cabelo vermelho”, dizia brava. O pai ria incrédulo, sem entender. 

Como todo Natal, arrumava os sapatinhos e os colocava junto à janela. Asseguravam que o Papai Noel viria. Quem sabe aquele ano viria com a boneca de cabelo?

Galos cantando, mosquitos zumbindo, calor... E nada. Nada de ouvir o barulho das renas. Diziam que quem fosse bonzinho o ano todo, o bom velhinho nunca esquecia.

Pensava: “Então tá bom!” Arrumava as cobertas junto ao corpo. “Eu fui boazinha, disto tenho certeza”, se virava na cama agora inquieta.

“Bem, tem aquele dia da briga com a minha irmã que eu puxei os cabelos dela.. mas ah!, Papai Noel não vai se lembrar disto.” Muxoxo. “Hum, estou ouvindo um barulho, será que é?” 

Não era, era um carroceiro tardio que passava pela estrada. Dormiu.

No outro dia, acordou tarde e correu para a janela. Sapatinhos vazios.

Desconsolo e aperto na garganta. Mas não podia chorar. Imagina dar um trabalho destes para a mãe.

Saiu e caminhou desconfiada pela casa. Olhou para a irmã agora sentada no rabo do fogão e verificou bem para ver se ela tinha presentes. Também não tinha. 

“Bem, ele se esqueceu de nós.”  Pensou. “Também, quem vai lembrar de duas meninas neste sertão esquecido? Aqui Papai Noel não passa. Passa ao longe na cidade. As roças ficam esquecidas.” pensava desconsolada.

A mãe já na lida, desossando o frango e sem tempo para observar os olhos compridos das filhas. Chegou à irmã e perguntou baixinho: 

“Ele passou por lá? Ouviu alguma coisa?”  E a irmã já irritada: “Não, “né”, por acaso trago algum presente comigo?!”

Caminhou devagar pela casa vazia. Chupeta na boca, segurando o paletó de pijama.  Pensava: “ih, tem nada não, nesta casa...”

Desceu as escadarias com a mãe  já gritando por ela: “Vem lavar o rosto e tirar este pijama!”

Fez-se de surda. Saiu lá fora e observou as casas da colônia. Algumas crianças exibiam brinquedos. Mas boneca de cabelo, nenhuma...

Paralelo a sua casa, morava um vizinho solitário e muito amigo da sua família. 

Vendo-a caminhar como se procurasse alguma coisa, veio ao encontro dela segurando dois pacotes.

Disse: “Chame sua irmã. O Papai Noel deixou na minha casa estes presentes.”.

Seu coração disparou! Gritou a irmã que veio correndo. Vai saber, quando ela  grita ou é bolo ou é surra.

Sendo os dois, é bom saber e correr! Juntas as duas esperavam entre sérias e ansiosas. Abriram os pacotes. 

Apareceram duas bonecas rosadas, olhos azuis estáticos, uma vestida de vermelho e outra de azul.

Olho na cabeça. Eram carequinhas com imitações de cabelo no plástico. 

Decepção para  a ela?  NÃO, nunca. Era a boneca mais bonita que já tinha visto na vida. 

Soltou a chupeta,  abraçou a boneca. Cheirou, levantou o vestido dela. 

“Ah, tinha as roupas de baixo na mesma cor do vestido. Linda!” – pensou maravilhada

Com a boneca nos braços, saiu andando duro, sem nada ver, segurando o encantamento nas mãos, subiu as escadas e foi namorá-la escondida no quarto.

Anos depois, já morando na cidade ainda sonhou muito com uma boneca de cabelos. Ela nunca veio. 

Ganhou uma depois, já aos 10 anos. Não sabe por que, mas o encanto havia acabado.   

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