Presente de Natal

Por: Roberto de Paula Barbosa

305454
- Oi Tio. Posso me sentar aqui? É que a maioria das vezes as pessoas não me deixam ficar junto delas, talvez porque minhas roupas estão rasgadas, estou descalço, sou pretinho e moro nas ruas, mas não sou de fazer mal a ninguém não. Eu sou pequeno e pouco desenvolvido, mas eu acho que é porque eu quase só como pão, a maioria das vezes pão amanhecido. Eu já tenho mais de 10 anos. As pessoas afastam-se temerosas quando me aproximo. Aprendi a usar essa vantagem e muitas vezes consegui que me dessem dinheiro ou outras coisas. É só fechar a cara e os grandes ficam tremendo, dando-me o que eu quero. Não consigo entender, mas é claro que os cacos de vidro em minhas mãos devem ajudar.
 
- À noite deito-me sob as marquises depois de escarafunchar as latas de lixo dos restaurantes. Às vezes tem boa comida lá. Outro dia encontrei a metade de um bifão recheado de presunto e queijo. Estava uma delícia, embora estivesse bem frio. Mas eu não ligo não, porque a maioria das vezes eu só como pão mesmo. Eu me levanto bem cedinho, porque o dono da loja abre cedo e me expulsa de sua porta. Aí vou para as ruas movimentadas e ando no meio dos carros desviando-me deles, quando passam em alta velocidade. Eu acho que seria melhor um carro me atropelar de uma vez. Assim acabaria tudo, pois eu acho que mais pra frente eu vou ter que assaltar e roubar para viver. Minha vida, Tio, é muito dura e ruim. Meus companheiros de rua, por eu ser fraquinho, sempre me tomam o que consigo, quando lhes dá na telha. Não tem essa de amizade não. Eles me fazem lembrar o homem que morava com minha mãe. Ele sempre me batia por qualquer coisa e me olhava com ódio e aquilo me dava uma revolta e eu não podia fazer nada, principalmente quando batia na minha mãe, até que ela morreu. Aí fugi dele e nunca mais o vi. O que eu mais senti foi a falta de minha mãe, a única pessoa que já me fez um carinho e conversou comigo, sem me maltratar.
 
- Eu me sinto muito só. Queria fugir outra vez, mas pra onde? Meus companheiros uma vez me deram cola pra cheirar, mas foi uma fuga rápida. Eu apaguei e sonhei um monte de coisas boas. Sonhei que uma família tinha me adotado e me davam comida, refrigerantes, doces, uma cama quentinha e muita bajulação. Quando acordei com o dono da loja me chutando vi que era apenas um sonho.
 
- Eu sinto muita fome também, pois não é sempre que tem comida no lixo dos restaurantes. A fome me corrói por dentro. Dá vontade de matar, de roubar, de fazer qualquer coisa pra acabar com a maldita. Quando eu peço, só me dão pão duro, seco. Uma vez, quando ainda morava com minha mãe, ela ganhou um saco com diversos produtos e ela fez uma comida onde tinha arroz, feijão, batata e salsicha. Que delícia! Depois, quando acabou, nunca mais tive o prazer de comer alguma coisa acabada de fazer, com cheiro e sabor.
 
- Um dia, bem no fim do ano passado, eu andava por uma rua onde tinha muitas casas bonitas, com jardins na frente, muitas lâmpadas coloridas enfeitando as casas e, pela janela, eu vi dois meninos na frente da televisão jogando vídeo game. Em volta deles tinha tantos brinquedos, que eu acho que eles, se brincassem com um por dia, após um ano eles não teriam brincado com todos. Eles riam e estavam felizes, sem se preocupar com o que iam comer naquele jantar, já que a mesa estava uma beleza, com muitos pratos, talheres, velas e flores. Aí veio uma mulher bonita abraçou-os e beijou-os com tanto carinho que eu fiquei com uma vontade louca de ter aquilo também. Não sei o que me deu na cabeça, mas eu pulei a cerca do jardim e cheguei mais perto da janela pra ver aquilo mais de perto. A mulher fazia uns carinhos nos meninos, que me fez sentir saudades de minha mãe. Eu queria fazer parte daquela cena, por uns minutinhos que fosse, daquela reunião tão aconchegante e com tanto afeto. Mas um dos meninos me viu e arregalou os olhos e apontou para a janela, ficando mudo de tanto pavor. Eu olhei pra trás assustado, procurando o motivo de seu medo. Como nada vi, compreendi, tarde demais, que eu era o motivo de tanto pavor. A mulher começou a gritar desesperada juntamente com os meninos e quando me virei para sair apareceu um homem alto com alguma coisa na mão. Nem deu tempo pra ver o que era, somente quando acordei numa maca de um pronto-socorro da prefeitura é que percebi que tinha levado uma paulada no pé da orelha.
 
- Agora já está chegando o fim de ano novamente e, não sei por que, as pessoas parecem que maltratam menos a gente. Alguns até conversam comigo, assim como o senhor está fazendo agora. Às vezes até ganho algum brinquedinho. De vez em quando aparecem umas donas muito bem vestidas com um saco enorme cheio de brinquedos de plásticos e vão distribuindo para os meus companheiros esparramados nas ruas. Vira uma pequena confusão, mas sempre sobra algum pra mim. Os brinquedos duram pouco, pois são bem fraquinhos, mas é bom enquanto dura. Pena que a gente só vê isso no fim do ano. Por que será que acontece isso? 
 
- Se tem um presente que eu gostaria de ganhar? Claro, Tio. O senhor pode me dar um pai e uma mãe?

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras