A escolha

Por: Eny Miranda

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- Eu quero esta! - diz, apontando o dedinho para uma boneca da vitrina.
 
A mãe olha, espantada. Que decisão cara!
 
- Que tal aquela do vestido cor-de-rosa? Não é linda? Tem sapatinhos com laço de fita...
 
- Mas eu quero esta! - repete, convicta.
 
- Ah, tem ali um joguinho de chá lindinho, azul e branco...
 
- Eu quero esta boneca, mamãe, por favor... É a que aparece na televisão - explica, já querendo fazer beicinho - Você me prometeu um presente de Natal...
 
- Mas não disse que seria a boneca da televisão.
 
- Mas a mãe da Carol deu uma dessas pra ela...
 
- A mãe da Carol é a mãe da Carol. Eu sou a sua mãe, e já te digo que essa não vou comprar. Escolha outra coisa.
 
- Mas a mãe da Júlia...
 
- É que a mamãe não tá podendo, filhinha...
 
- A Júlia tem agendinha eletrônica e mochila com rodinhas, da Barbie; tem sandália Hello...
 
- Olha que miminho é a sua sandália! Novinha, que a mamãe te comprou outro dia mesmo.
 
- Mas eu pedi aquela da televisão, com desenho da Hello Kitty...
 
Esse desacordo entre vídeo e vida prosseguiria, não fosse o surgimento, súbito, no vidro, de uma esperança - esguia, delicada, aspecto frágil, suspensa por seis longos fiapinhos de pernas... quase um risco que se irradia para os lados, vista agora de onde estavam mãe e filha. Ao pousar ali, num triz, esbarra no peito e, depois, na cabeça da menina. 
 
Susto! Mãos erguidas em gesto de autodefesa. Frágil e assustadora, na sua teimosia, na sua convicção de permanecer junto delas, era, contudo, inegavelmente verde. 
 
Pois foi essa esperança, surgida às pressas, que trouxe a menina e a mulher para o mundo cá de fora. Assustada, a filha busca proteção na mãe, que a abraça, como a livrá-la de um perigoso monstro.
 
Uma não sabia dessas esperanças visíveis, que parecem inofensivas, mas são bem capazes de ferroar, se confiamos demais no seu ar inocente; a outra, experiente, não gosta de estar se iludindo com esperanças, que podem ser, ela bem sabe, irresistíveis mas ásperas, ao toque e à muita convicção em suas verdes promessas. Apesar disso, sente-se aliviada com a aparição daquele ser ambíguo, que a livra de uma situação desconfortável, e lhe concede ver, ao mesmo tempo, os reflexos de sua cor promissora. 
 
Recompõe-se:
 
- Calma... Esse bichinho se chama esperança, e esperança não faz mal a ninguém! Que tal procurar uma, bem verdinha, para ser sua companheira? Garanto que nem a Carol nem a Júlia pensaram em ter uma esperança, pois a mãe vai logo comprando o que mostram na televisão, tudo igual. Coisa mais sem graça...
 
A menina titubeou, mas viu a oferta com curiosidade. Uma esperança de verdade, só dela!
 
- É... acho que a Carol e a Júlia nunca pensaram mesmo em ter uma esperança de verdade!
 
A mãe reflete: uma esperança é sempre bem vinda. Verde e livre, ela vive nos cantos e nos campos; em paredes de estuque e em marmóreos salões; nos caminhos retos e nos sinuosos, que margeiam o possível, o impossível, o temível, o desejável e - por que não? - o alcançável.

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