O alto da montanha

Por: Isabel Fogaça

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Passei no mestrado. Cheguei ao topo da montanha. Alcancei meu pote de ouro. Atingi minha maior satisfação. Superei meu sumo anseio. Calei positivamente o meu coração: contei os meses, e os dias deste ano para as três provas deste processo seletivo.
 
Na véspera da primeira, eu pedi que me liberassem do trabalho no restaurante. Conversava esperançosa com algumas pessoas em quem eu confiava e elas me diziam sem muita emoção: “Você vai conseguir, estudou por isso, nada mais justo que passe.”.
 
Ainda na noite da véspera, eu chorei. Senti minha pulsação e sabia que aquilo vinha da minha alma, porque pensava em minha família, havia meses que eu não via meu irmão e minha mãe. Estava domada pela saudade e queria ser motivo de orgulho e felicidade para eles. E, além disso, eu queria mostrar para mim mesma que após um ano difícil, eu estava pronta.
 
Em conversas com meu terapeuta, ele fazia questão de perguntar: “Isabel, você tem certeza de que seu pote de ouro é sua vaga no mestrado? Veja quão cresceu durante este ano. Você é uma pessoa totalmente diferente.” Eu sabia que eu havia me tornado uma nova Isabel, mas ainda que vislumbrasse meu crescimento pessoal como uma jornada, eu precisava buscar meu prêmio, meu amuleto sagrado que estava no pico da montanha mais alta.
 
No dia da primeira prova, acordei dizendo às pessoas que estavam em minha casa: “Bom dia! Hoje é o dia que eu vou passar no mestrado!”. E levava em pensamento qual seria a roupa ideal que uma guerreira usaria para um combate. Ri de meus próprios pensamentos, ganhei um lanche de minha melhor amiga, e fui esperar na porta do auditório onde a prova seria realizada. Conversei com algumas pessoas que faziam questão de demonstrar quão eram experientes e como estavam preparadas para aquela vaga. Ignorei tudo e foquei meu pensamento em orações a mim e ao senhor que lia o dicionário de língua estrangeira, eu nem sabia o nome dele, mas queria que seu esforço, assim como o meu, fosse retribuído. Li e reli o texto da prova com emoção, e consegui. Comparei os gabaritos, e eu havia acertado todas as questões daquela prova.
 
A segunda avaliação do processo seletivo era a que eu mais queria fazer, pois tinha tudo aquilo que eu havia aprendido e por que me havia  apaixonado durante a graduação. Ofereceram-me uma folha de rascunho que eu nem cheguei a usar. Coloquei todos meus conhecimentos na própria folha de prova, eu sabia que não teria como apagar a história de minha graduação que estava sendo transcrita ali. Passei na segunda prova e recebi a notícia enquanto estava trabalhando no caixa do restaurante, abracei tão fortemente minha colega de trabalho que meu tórax doeu.
 
A terceira avaliação foi em forma de entrevista. Eu tive a certeza de que naquele dia, eu sentaria frente a frente a uma banca e contaria a eles porque eu estava ali com tanta convicção. Antes mesmo que eu entrasse naquela sala e fizesse a minha parte, encontrei uma senhora chamada Eugênia. Ela desabafou, domada de emoção porque também queria a vaga do mestrado, e seu sonho era tão importante quanto o meu, e naquele instante eu quis muito que pudéssemos dividir a mesma sala de aula na pós-graduação. Segurei suas mãos e disse: 
 
“Eugênia, tenho certeza de que você vai conseguir. Você só precisa entrar naquela sala, e dizer para a banca o porquê você está aqui!”.
 
Eu havia escutado tanto esta mesma frase, que nem notei quando eu mesma disse. Eu queria que Eugênia entrasse no mestrado, que o senhor que lia concentrado o dicionário e não fazia questão de competir com seus concorrentes, também entrasse, e aquele também era um direito meu.
 
No dia seguinte, peguei poucas roupas e voltei para a casa de minha mãe. Viajei por sete horas, e estava me preparando para pegar o próximo ônibus. Sentei no chão da rodoviária e vi que o resultado havia saído. Naquele momento, a maior rodoviária da América Latina se tornou o lugar mais pacato do mundo, eu não via o mundo girando ao meu redor. Minha internet estava lenta e eu não conseguia ver meu nome, eu dizia para mim mesma: “Está tudo bem, você fez o que deveria ter sido feito. Está tudo bem.”. Logo, minha melhor amiga me manda uma mensagem dizendo: “Bel, para de brincar, estou vendo seu nome! É real! Você passou! Tudo que você enfrentou este ano valeu à pena porque você passou!”.
 
Eu passei. E vi que Eugênia está prestes a conseguir. E o senhor do dicionário que eu desconheço o nome, espero vê-lo no primeiro dia de aula.

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