A Palavra

Por: Maria Luiza Salomão

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2015 a minha palavra-bússola foi aconchego, e “considerando os considerandos”, foi um ano de tentativas de encontrar espaços e tempos de íntimos encontros.

Talvez tenhamos encontrado, por vezes, esgotos mal cheirosos e populosos, e não salas perfumadas de estrelas, ou tempos edênicos de eternidades.

Ainda assim, não creio ser utópico buscar a intimidade, já que ela não promete exatamente perfumes e liberdades e seguranças sem fim.

Daí que talvez a minha palavra, ou minhas palavras para 2016 sejam “boa companhia”, um passo a mais para essa utópica intimidade difícil de sustentar entre humanos.

E o que é, como estar em, onde achar boa companhia?

Penso rápido. É preciso achar um silêncio, e o mais raro deles, o silêncio a dois. Silêncio a dois, a três, a mil, é lindo! Há algo no ser humano que se liga a outro sem qualquer necessidade de som, de matéria. Há um sonar dentro de cada ser humano que reconhece e criptografa ou de-criptografa qualquer língua, som, ruído, algaravia, pensamento ou sentimento.

Um bebê tem um sonar, um surdo tem sonar. Qualquer ser, uma pedra, uma planta, um animal, tem um sonar?

Tem.

Todos os seres têm profundos sonares dentro de si. Desses que funcionam a 360 graus, e que registram buscas submarinas e subterrâneas, cósmicas, daquilo que é não-identificado, não nominado.

Esses sonares são capazes de sondar a boa companhia. O sonar não interfere na busca e não interfere naquilo que registra, nem tenta transformar o que é, ou que pensa que é, ou que sonha que é.

O sonar é ativamente passivo, captura pela absorção do que não entende, não sabe, mas conduz, canaliza, transporta de fora para dentro, de dentro para fora da alma. A alma, essa que não se instala em nenhum lugar do corpo, mas existe em qualquer parte dele.

O sonar é fundamental para a alma, camaleônica na sua essência. Sem o sonar a alma é cega, surda, muda, paraplégica, perdida, confusa, atabalhoada, não sabe dos ventos, nem das correntezas, vaga alma. O sonar é fundamental para que a alma encontre uma boa companhia.

Desejo a todos um sonar resiliente para 2016. Que fiquem acordados com a alma, acordados na alma, acordados para as almas. Cada uma tem um sonar - mais ativo, ou perigosamente desativado.

Que saibamos identificar quem vaga de sonar desativado e tenhamos para com esse notívago, afeito às sombras do que não sabe, não percebe, não sente, não ressoa, uma atitude delicada.

Desejo que saibamos acordar essa alma com sonar desativado, que saibamos avisá-la dos perigos imensos que corre em navegação cega-surda-ao léu. É uma delicadíssima e sofisticadíssima função a do sonar, já que ele é capaz de detectar a Vida em seus movimentos metamorfoseantes.

Em um ano afeito a escuridão e a profundas ignorâncias de credo, de respeito, de amor e paz (ou seja, com graves probabilidades de trombadas catastróficas de todos com todos), desejo que ativados os sonares das almas, velejemos seguros, ressonantes, comunicativos, em correntes de boas companhias.
 

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