Praça João Mendes

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Quando a vida vai se prolongando, a nostalgia e a saudade de tempos idos vão cutucando a mente e nos insta a reviver os bons momentos de crianças e jovens. Meu avô Jerônimo de Paula Barbosa morava na Praça João Mendes e minha presença em sua casa era constante, principalmente pelas guloseimas que eram fartas e pelos gibis que se espalhavam pelos quartos de meus tios. A praça era circular, de terra batida, e uma das vias da Av. Major Nicácio a contornava pela Rua Líbero Badaró, de modo que ela era bem maior do que é hoje. Nela armavam-se circos e parques com brinquedos, de modo a trazer um pouco de diversão aos francanos, que não tinham opção de lazer. O circo era armado com uma grande lona no centro da praça, pois não havia árvores, onde apresentavam espetáculos com leões, tigres, zebras, cavalos amestrados, além dos palhaços e mágicos, que encantavam e divertiam a criançada e os adultos. Os parques atraiam muitas crianças que obrigavam os pais a acompanhá-los nos brinquedos, tornando a praça muita iluminada e movimentada.

Com a colaboração de meus irmãos e amigos, de memória prodigiosa, Carlos Lima e Élison KPTA, rebobinamos as lembranças e vimos o Pedro Capel Berdu dirigindo o ônibus da Empresa São José, que fazia a linha Estação/Praça João Mendes e que, aos domingos, esticava até à Capelinha para a missa dominical. Ainda hoje vemos o Sr. Pedro dirigindo sua “poçante” Variant Verde 197e bolinhas. Ao lado da casa de meu avô, além do beco do “Escorrega Cachorro”, ficava um casarão onde funcionava a “Nova Era”, hoje Edifício José Russo, depois uma rinha de galo e, em seguida o Empório do Sr. Ageu, agora a Padaria Estrela. Ao redor e nas adjacências de toda a praça tivemos, ao longo de um grande período, pois a memória ainda não conseguiu estabelecer uma ordem cronológica correta, o Grupo Escolar da Cidade Nova, que foi cedido pela Loja Maçônica Amor à Virtude, que mantinha a Escola Sabino Loureiro, as casas das famílias Nassif, Naldi, Barbosa, Granero, Fernandes, Bastos, Nicolela, Sichierolli, Paula, Engler, Menezes, David, Taveira, Garcia, Marques, Traficante, Silva, Pini e muitos outros. Havia também diversos estabelecimentos, entre os quais, destacamos: Bar N.S.Aparecida; Bar Pinguim, ao lado da feirinha do Sr. Peixeiro, pai do Tonico Teixeira, que foi professor de tênis e goleiro do Comercial e Fulgêncio; Sr. Jorge Matos que mantinha um serviço de alto falante e fazia propagando do PTN (Partido Trabalhista Nacional) pelo qual foi candidato a vereador; havia o comércio do Sr. Aniz Nassif, que depois virou Auto Peças São Jorge, do Sr. Emílio Fernandes, e que cerrou as portas há poucos anos; Farmácia do Orestes Moreti; dentista Eduardo de Paula; Padaria Minerva dos Irmãos Archetti; também foi construída a igreja N.S.das Graças pelo Sr. Nicola Archetti e família, em agradecimento por uma graça alcançada.

Se formos relembrar de todos os personagens e os fatos que essa praça reverenciou, este espaço seria insuficiente, mas ainda cabe lembrar as 100 horas de pedaladas sem parar do Zuluaga, na Av. Major Nicácio, entre a Praça João Mendes e a igreja N.S.das Graças.

Hoje, com nostalgia, não posso mais cruzar a Praça, usufruir as sombras de suas frondosas sibipirunas, sentar em algum banco para apreciar o movimento, pois ela foi tomada de assalto por um bando de drogados, bêbados e viciados que a fazem de sua morada, com cozinha, sala de estar, dormitório e banheiro, sem contratação de uma faxineira sequer. A legislação garante-lhes o direito de ir e vir, mas tolhem, com a sua falta de civilidade, o mesmo direito para o resto da população francana. Diante do abandono dos jardins, gramados, raros monumentos e bancos quebrados, só nos resta lamentar e tapar o nariz frente ao lixo acumulado naquela que trouxe muitas alegrias às famílias que por ela passaram.

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