O doido sou eu

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Até as seis horas e trinta minutos, o centro da cidade é outro. Exibe um retrato de Franca desconhecido de quase totalidade da população. Ele semelha os pobres bairros periféricos de antigamente, onde todos se conheciam, todos se cumprimentavam.

Eu percorro aquele espaço quase todas as manhãs.

Indo pela Rua do Comércio, sou alcançado pelo entregador de jornal. Cavalgando sua bicicleta, acompanha-me por uns trinta metros, criticando, em voz bem alta, atitudes e iniciativas da Presidência do país, do Congresso Nacional, do Governador, do Prefeito, dos vereadores locais. Deseja-me bom dia e some velozmente na esquina. Nunca me esqueci de sua resposta quando perguntei seu nome.

- Domingo. Domingo até no meio da semana.

Cruzo as praças e cruzo com homens e mulheres uniformizados de branco, com jovens de ambos os sexos, portando mochilas nas costas. O que se ouve, então, é uma sucessão de cordialidades.

- Bom dia.

- Oi.

- Olá.

Na pracinha perto do prédio da Acif, passo sempre por um jovem. Sentado num dos bancos de concreto, ele vela criança em pequeno berço depositado em seu colo.

- Esse menino está levantando muito cedo.

A resposta se resume num sorriso largo, na ressalva:

- É menina... Chama Laísa...

Caminho pela Rua Major Claudiano, passo diante de um banco, jogo um bom dia para idosos sentados na escadinha, fumando.

A resposta chega em coro:

- Bom dia.

Lá perto do museu, passo por uma senhora e uma criança – onze, doze anos – puxando carrinho com objetos escolares. Cumprimento, só a mulher responde.

- Bom dia.

Não raro, alguém passa por mim, cumprimenta, tece comentário:

- Fazendo caminhada cedo, hein?

A camiseta de sempre, o abrigo de quase todos os dias, conduzem à interpretação errônea.

Dia desses, houve novidade na rotina. Ao passar por uma jovem, cumprimentei-a.

-Bom dia.

Ela reduziu a velocidade da caminhada, olhou-me bem e me surpreendeu:

- Bom dia por quê? Eu não te conheço.

Como estava de muito bom humor, não me fiz de rogado.

- Não seja por isso. Eu me apresento.

Forneci-lhe meu nome, minha profissão, coloquei-me ao seu dispor. Só não lhe revelei meu CPF e meu RG por medida de segurança e cautela.

A mulher olhou-me por alguns segundos, virou-me as costas e se foi, falando sozinha.

Encontrei novamente a dita cuja dois ou três dias depois. Ela estava acompanhada de outra jovem. Não titubeei.

- Bons dias.

Não houve respostas. Só pude ouvir a advertência:

- Não liga pra ele, não. Ele é doido.
 

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