As camélias

Por: Maria Luiza Salomão

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A Rainha Isabel, aquela que assinou a Lei Áurea, no dia 13 de maio de 1888, recebia camélias dos abolicionistas.  Elas foram plantadas no Jardim Botânico, com a vinda da família real portuguesa, quando cá chegaram.

Quando estive em Portugal, em visita a um castelo, vi um bosque de camélias, nunca tinha visto tantas árvores tão cacheadas de flores,  nem sabia que o que sempre vira como arbustos, poderiam altear-se em galhos floridos, a ponto de superar minha altura em mais de metro. 
 
Vi muitas camélias em Portugal. E sempre me lembrei deste simbolismo, unindo os dois países, por laços especiais.  Será que a Corte, fugida da Europa, sentiu na real pele o quanto a liberdade era preciosa e, assim, identificou-se com os escravos, e, depois, com os nativos, desfazendo os laços coloniais?  
 
Interesses políticos regem os destinos da História, aprendemos bem cedo na vida. Mas nada sabemos dos bastidores em que esses mesmos interesses se encarnam nas pessoas, nos atores, da política.  
 
Tenho tido uns devaneios estranhos. Uma vontade de oferecer camélias, mas a quem, no Brasil de hoje? Quem poderia nos livrar do jugo escravizante da Corrupção? Quem haveria de assinar um documento declarando livres os filhos de brasileiros trabalhadores, os filhos daqueles que viram roubadas - a fé e esperança - no imenso continente onde nasceram e quiseram nele procriar? 
 
Depois de 15 anos de labutas com três mudas de camélias no meu jardim, tive uma surpresa maravilhosa neste ano. Elas altearam belas e, na ponta de seus galhos, surgiram inúmeras camélias. Não brancas, como prometidas por quem me vendeu as mudas, mas camélias cor-de-rosa, com um debrum lilás nas suas pétalas. Camélias mestiças. 
 
Minhas camélias, segundo meu bondoso jardineiro, irão brotar, daqui para frente, numerosas.  Guardo a esperança de oferecê-las, com a faixa “liberdade, ainda que tardia”.  Mas, a quem, meu Deus? 

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