Intervalo

Por: Eny Miranda

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Esperava boa colheita, neste início de ano, mas suas searas vêm amanhecendo e anoitecendo desertas. O terreno permanece ressecado, insensível aos cuidados das nuvens, que, solícitas, acodem ao campo com suas melhores águas, em regas diárias, quase contínuas. As sementes jazem, impassíveis, nos ninhos estéreis.

Caminhando sobre pedras e areia, olhos a serviço da alma, procura um sinal, pequeno que seja, a promessa de um estigma aberto ao pólen, um minúsculo brotamento, o medrar de um só abrolho. No fundo, bem no fundo, sonha encontrar um oásis inteiro. Ansiosa, busca o verde, a água fresca e transparente, as cores e as doçuras de jardins concebidos com o cuidado silencioso de quem semeia a terra como o poeta semeia a folha. Confiante, espera pelo poema perfeito, cultivado e nascido de enlaces e desenlaces entre verbo e alma; orquestrado e regido pela sintaxe do amor ao Belo.

Mas o que se estende à sua frente, a perder de vista, são os revérberos do sol no solo escaldante. Erguem-se como dançarinas transparentes, que ondeiam seus quentes corpos suspensos do chão. Nem a água das chuvas consegue desenhar em sua pele uma nascente, uma gota, uma pétala.

Mas, o que é aquilo?

Os olhos já cansados parecem divisar ao longe qualquer coisa tremulando entre horizonte e terra chã. O olfato também percebe uns odores úmidos de ir e vir entre sal e azul.

Avança.
Sons leves de silêncios entrecortados começam a chegar em marolas, trazidos pelo vento - promessas verde-azuis desenhando-se na linha do horizonte.

Sonho?
Miragem?
Por enquanto, o sal é terra, a água é terra. Segue caminhando, entre o que é e o que espera.

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