Elegia

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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 Quando eu tinha sete anos, pulava cercas, saltava muros, subia em árvores, achava as mangas e as jabuticabas do quintal vizinho maiores e mais saborosas que as de meu quintal. O enorme buraco da fechadura do banheiro feminino traduzia mundos imaginados. Nunca fiz estilingue, nunca matei passarinho. Afora isso, fiz peraltice toda e muita.

Apanhava da mãe, chorava muito, e vinha com o choro a vontade de fugir.
 
— Vou sumir lá pro Japão...
 
Pegava graveto, furava a terra, abria estrada para o outro lado do globo, fazia juramento.
 
— A mãe vai ver... nunca mais volto... ela vai ver... vai chorar que nem doida...
 
Jurava e jurava. Nunca mais castigos, coques, puxão de orelha, tapas na cara desavisada. Mas o juramento resultava inócuo: a terra era dura, o Japão ficava longe, o graveto quebrava... Além disso, ficava com fome. Então, passava na bica, lavava as mãos e a cara, entrava em casa ressabiado, pegava o prato esmaltado, comia arroz, feijão, um pedaço de mandioca cozida. 
 
Hoje, quando o progresso encanou e aqueceu a água da bica, tenho as mãos e a cara sujas do pó da estrada,  do tempo. E continuo apanhando e levantando juras.
 
Rebelde aos ensinamentos e às coças da mãe vida, o espírito teima nas peraltices. Apanho. Apanho da vida, que me chicoteia e me faz brotar na cacunda calombos arroxeados. Aliso lentamente cada um deles e não há alívio.
 
— Não aguento mais... vou embora... Juro que vou embora.
 
Olho para todos os nortes, não encontro sossego, não localizo porteiras. Tudo está longe, do outro lado do Japão.
 
— Vou embora... juro...
 
Juro, juro e juro. Falsamente.
O asfalto cobre o chão duro, minhas mãos permanecem crianças... e não há graveto.

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