Reflexões junto ao mar

Por: Angela Gasparetto

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 De visita ao litoral, faço eu a caminhada de todos os anos junto ao mar.

 Meu prazer maior é iniciar a caminhada  no calçadão, ouvindo o som do final da década de 70,  fazer a volta pela praia, agora já com o tênis a tiracolo, deixando que as ondas molhem meus pés, mas muito mais a minha alma.
 
Neste caminhar, não sei por que, mas desligando o som do celular,  começo a ouvir uma canção imaginária que rege meu passeio predileto, que coloca meus pensamentos em ordem, que permeia o balanço do ano e da vida.
 
Vou caminhando, pensando, observando as pessoas à volta, as crianças que brincam maravilhadas na areia, o pescador  matutino, a família supostamente feliz, um homem sentado claramente infeliz  ou a mulher estática observando o nada. 
 
O sol vai nascendo aos poucos no horizonte e o espetáculo que se contrapõe às ondas é algo indescritível.
 
Por mim passam pessoas também caminhando, outras correndo, outras apenas observando aquele espetáculo da natureza.
 
Neste caminhar de todos os anos, vou colocando as coisas no devido lugar, pensando os problemas ocorridos, as dificuldades encontradas, os laços fortalecidos ou desfeitos.
 
A música continua a reger estes pensamentos, um siri passa correndo sob meus pés, eu pulo, rio e paro maravilhada. Volto ao caminhar e a filosofar.
 
Depois de tantos por quês deste ano, penso que, embora sendo clichê, tudo acontece mesmo porque tem que acontecer. 
 
As pessoas chegam ou vão embora da sua vida porque era para ser assim. As perdas pelas quais a gente sofreu tanto, observando por outro ângulo, são os ganhos que você precisava obter de outra maneira mesmo.
 
Toda luta insana, questionamentos e desassossegos que permearam algumas das situações deste ano, de repente foram se acomodando, tudo foi tendo um sentindo muito claro, muito preciso do que era reservado para mim.
 
Ter esta consciência precisa do que realmente aconteceu contigo é permitir ter um olhar corajoso e imparcial sobre as suas responsabilidades em cada situação. 
 
Algumas vezes este olhar necessita até  mesmo ser cruel, porque assim você desconstrói todas as desculpas e todas as culpas que por ventura queria transferir para o outro.
 
A atitude contrária também é bem -vinda. Permitir-se ter um olhar carinhoso contigo mesmo.
 
Se perdoar pelas perdas que ocorreram contigo independente de quem foi  a falha.  Se permitir errar, se aceitar, se acarinhar e dizer para você mesmo: “Está tudo bem, você fez o seu melhor. E vai dar tudo certo da próxima vez.”
 
Caminhando, pensando,  brincando com as ondas e colocando tudo nos eixos.
 
Assim, como todos os anos, mas muito mais neste, porque só a maturidade te dá o discernimento necessário para se posicionar, continuar ou deixar ir.

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