Ettore Scola: um cineasta muito especial

Por: Luiz Gonzaga Marchezan

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Ettore Scola foi um cineasta de inspiração neorrealista, que trabalhou, quase que constantemente, com uma companhia estável de grandes atores, amigos seus – Vitório Gassman, Ugo Tognazzi, Stefania Sandrelli, Marcelo Mastroiani, e extraiu deles representações memoráveis das esperanças e desesperanças de uma geração de italianos do pós-guerra.

Os traços da caricatura de Scola no jornal Marc’Aurélio, em que trabalhou com Federico Fellini (período recuperado no último filme Que estranho chamar-se Federico, Scola conta Fellini-1929/1993), arrematam o ritmo cômico que o cineasta sempre imprimiu em seus filmes, no âmbito de uma direção de tomada neorrealista.
 
A disposição de Ettore Scola, em seus filmes, em se voltar para as variações, no tempo, do comportamento da sociedade italiana, proporcionou-lhe, por exemplo, realizações como a de uma narrativa expandida no tempo e no espaço, caso de Nós que nos amávamos tanto (1974), como de outra, concentrada num só espaço e tempo, que assistimos em O terraço (1980). Deparamo-nos, nos dois filmes, em grande parte, por meio daqueles mesmos atores próximos do diretor, com as representações de ambientações que apontam mudanças no mundo, na sociedade italiana, nos sentimentos e afetos, mostradas  por meio de crises morais vividas nos papéis de seus sempre frágeis personagens, que adotam e abandonam ideias, deixando em seus gestos e falas, riso e deboche, fracasso e humanidade.
 
Que estranho chamar-se Federico. Scola conta Fellini-1929/1993 narra, em seus episódios, fatos vividos pelos dois diretores, que também apareceram em motivos das narrativas de Os boas vidas, Roma, A doce vida e Amarcord, de Federico Fellini, e Nós que nos amávamos tanto, de Ettore Scola. Todas essas obras voltam-se para a forma e gosto pela vida italiana, aberta para um certo mistério e impasse, que rondam quer o fato, quer a ficção.

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