A Ponte do Inca

Por: Sônia Machiavelli

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A cada dia vivido, e após contínuo balanço de tantas velas apagadas no bolo da vida, mais me convenço de que aquilo que conhecemos é infinitamente menor em relação ao que ignoramos. Foi com este espírito que cheguei às marcas do protagonismo inca nas escarpas andinas por onde transitamos nos primeiros dias deste janeiro que já caminha para o fim. 

Na minha mente sempre associava essa cultura pré-colombiana aos espaços peruanos, em especial à mítica Machu Pichu à qual um dia quero ir. Ignorava completamente que o império houvesse se estendido de lá até porções chilenas e argentinas. E que para interligar os núcleos urbanos, estradas tivessem sido construídas nas montanhas geladas com o propósito de facilitar o deslocamento das pessoas. Quando os espanhóis chegaram, foram surpreendidos pelo nível de desenvolvimento das cidades incas,  cujos projetos arquitetônicos complexos incluíam a construção de palácios, fortalezas e templos em cidades com avançada infraestrutura. Mas  tudo foi rapidamente destruído pelos bárbaros, só no verniz civilizados, incapazes de conferir valor a expressões culturais diversas das suas, pois cegos pela cobiça do ouro e de outros bens materiais. 
 
O bom de ousar viver sem tempos mortos é que a gente vai conseguindo abrir janelas, iluminado aqui e ali as trevas da ignorância. Foi o que me ocorreu entre Santiago e Mendoza, a mais ou menos 4 mil metros de altura. Atravessando a Cordilheira dos Andes, após muito tempo sem vestígio humano, avistamos as placas indicativas de um  lugar - Puente del Inca. Resolvemos parar. De onde estávamos só enxergávamos algumas construções precárias à esquerda; à direita, pequenas casas de alvenaria. O vento gelado nos cortava e entramos correndo no que nos pareceu um parador. 
 
Havia poucas pessoas lá dentro, com certeza  montanhistas, pois  a  face oeste do Acongágua estava ali perto. Uma jovem gentil nos atendeu, estendeu o cardápio e, respondendo à nossa pergunta,  disse que o grupo de habitações do outro lado fazia parte da vila militar. Pedimos sanduíches e fomos ver a tal ponte. No mirador olhei para baixo e a primeira pergunta que me fiz, impactada, tentando me manter firme para que o vento gelado não me carregasse, foi: “mas o que é isso?” A inusitada obra dessa escultora que é a Natureza permanecerá para sempre  na minha memória como  monumento extraordinário. Imensa pedra verde com listas amarelas (ou seria o contrário, amarela com listas verdes?) sobreposta na horizontal a outra de formato parecido, fazia  a vez de ponte para o rio de águas sulfurosas que tornavam as rochas vivazes, destacadas na paisagem cinzenta. A construção que víamos entre as rochas, datava dos anos 20 do século passado. Empresários argentinos tinham erguido ali um hotel que chegou a receber hóspedes ilustres. Nos anos 50, infiltrações desestabilizaram a construção que se mantém como ruína. 
 
Onde entra o Inca? De volta ao parador perguntei à mesera o motivo e ela nos disse que fora este povo que habitava a região quem havia descoberto os efeitos curativos daquelas águas. Não me contentei com a resposta apequenada diante de paisagem tão espetacular. De volta ao Brasil fui pesquisar e acabei encontrando a narrativa que sobrevive no idioma nativo quéchua, falado ainda por 10 milhões de andinos. Demonstrando que não eram apenas grandes arquitetos, mas também espíritos sonhantes que buscavam explicação no imaginário  quando não havia espaço ao racional, os incas criaram a sofisticada  lenda que  aparece inclusive  em textos escolares. Diz assim:
 
“Antes da chegada dos estrangeiros, o filho do Inca foi acometido por grave doença. Por todo seu corpo alastravam-se feridas. Depois de tentar todo tipo de cura, os sacerdotes recomendaram ao imperador que levasse o menino para se banhar numa fonte milagrosa ao Sul. Ela poderia ser reconhecida por suas cores. Escolhidos os melhores guerreiros, em caravana partiram de Cuzco, caminhando muitas semanas até encontrarem o lugar. Mas como mergulhar o menino nas águas? Era impossível transpor o vão entre as margens, pois os paredões eram extremamente escorregadios. Foi então que os guerreiros se abraçaram e formaram um comprido cordão humano. O pai, com o filho nos braços, caminhou sobre as costas daqueles homens valentes e chegou  ao leito, onde banhou a criança. Ao vê-la curada, o Inca se comoveu, voltou-se para agradecer aos guerreiros. Mas eles haviam se petrificado, transformando-se na ponte. A Ponte do Inca.”
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PS. Por amar a literatura e reverenciar a capacidade de criar, também acho que sendo a lenda mais bela que o fato é  ela que deve ser publicada. 

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