A verdade é menor do que eu

Por: Débora Menegoti

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Eu, agora, eu já não sou mais uma criança condenada ao demoníaco, cheia de medos e culpa. Não me assusto tanto mais.

Eu crescera, me tornei simples, mulherzinha como uma Sandy. Socos, armaduras, espadas, bombas nucleares e as bonequinhas com seus sininhos... Tudo extinto.

Sobrei neutra, eu aqui sobre a lasca da casca de ferida gigante de alguém, como em tapete mágico carregada, amparada sempre por providência nada merecida. Daqui de cima vejo a janela, transbordando em grito mudo, embora tão intenso. Essa dor que vem lá de dentro me comove. Sou erosão, descanso de uma nação, ou mesmo uma fonte de petróleo plantada de uma semente ínfima de silêncio, só jorrarei após repouso ardente  em perspectivas do que não há no presente... Por volta de daqui a cem mil anos.

Eu te vi em chamas debruçar- se na janela.

Vi, você quer voltar pra "casa"; sinto... Aqui te caberia. Talvez porque hoje é noite de lua cheia.

Pode urrar. Talvez porque nasci para guardar desgraças em silêncio e ser desacreditada.

A vida é injusta. Aqui se faz, os outros pagam. Com juros, claro!

Ver é melhor que falar mas nem sempre é bom.

Vejo águias atentas, lagartixas abióticas, raposas e utilitários...
Vejo cantil de água suja se apaixonando por caricaturas derretidas pelo isqueiro de Deus.

Passo por favelas devastadas pela chuva.
Terrível engano.

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