Fidelidade

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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A mulher era bonita.

Não se chamava Teresa, nem fomos arrastados pelos giros da valsa, quando nos vimos pela primeira vez. Ao contrário, ela estava quase imóvel atrás de um balcão, onde trabalhava, na firma de um japonês rico.

A mulher era muito bonita e se chamava Marlene, conforme soube tempos depois. 

O balcãozinho e os olhos semi-fechados do seu patrão foram obstáculos do tamanho da Mantiqueira a separar a minha e a timidez da mulher. E eu engoli a gana de sobrepujar balcões e montanhas e o desejo de arrastar aquela mulher para garimparmos juntos, nas minhas gerais minas.
 
A mulher era bonita, muito bonita. E eu a amei profundamente.
 
Ela se casou com outro, no entanto. E a vida a presenteou com uma penca de filhos. A face inexorável do tempo machucou-lhe o corpo, mas não apagou sua beleza.
 
A face maldosa do tempo insinuou, muitas vezes, que eu deveria esquecê-la. Mas eu continuei fiel àquele sentimento brotado num escritório, num fim de tarde.
 
Hoje, é tarde. 
 
Tudo é tarde hoje. 
 
Mas o entardecer traz colheita.
 
Volvo a cabeça, olho a madrugada, e a manhã, e o meio dia que caminham lá longe, sumindo na curva da estrada cuja poeira avermelha o verde das margens..
 
Mas há colheita, sim.
 
Abro porteiras, caminho dentro de mim, descubro que permaneço fiel. Continuo fiel a Marlene, continuo fiel às mulheres que cruzaram as estradas de meus sítios ao amanhecer, ao meio dia, no começo desta tarde que viaja célere rumo à escuridão que avança.

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