Conversar

Por: Maria Luiza Salomão

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Algumas formas de conversar, contemporâneas, me impressionam pela ausência efetiva de comunicação. Ao ler romances antigos, notamos que os desacertos na comunicação sempre existiram. 

Atualmente, vejo uma pressão por objetividade. Qualquer coisa escrita, livro, os textos têm que ser curtos, claros, enxutos, porque as pessoas não leem...(que pessoas?). Com os falantes, a coisa é, para mim, mais intrigante: há uma pressa, uma pressão, para que o outro acabe logo o que está falando para que alguém roube a cena e diga o que quer dizer (às vezes a mesma coisa que o outro estava dizendo, às vezes algo que não tem a mínima ligação com o que está sendo dito).
 
Tanto no encontro coloquial, quanto por escrito, a pressão não é no sentido da TROCA, mas no sentido de “acabe logo o que está dizendo, porque o “o que não sei e nem sei se quero entender o que você quer dizer” acaba tendo mais espaço do que o conteúdo, do que a possibilidade de pensar, de sentir, de pesar as ideias, o assunto.  Atualmente a mensagem não importa mais, importa a voz que fala, e tem que falar alto para sobrepor a outra voz. O importante é que aquela outra voz se cale. Assume, então, a cena da pseudo-conversa a voz que grita mais alto.   Cadê as conexões? 
 
Conversar demanda tempo, interesse, curiosidade. Serve para espichar o tempo, para haver e fazer pontes. A rigor, conversar não tem ponto de chegada, apenas de partida, e que todo mundo se divirta “no durante”. 
 
Observo também a pseudo-intimidade. Alguém diz o que pensa, como se estivesse sendo espontâneo: diz sem pensar o que está falando, sem se aperceber de como o outro vai receber.  As falas saem rudes, para não dizer agressivas.  Não são conversas.  OU então são leitores que descartam o livro nas primeiras páginas, ou param o filme que estão assistindo (hoje se vê toneladas de filmes em casa mesmo) se não gostam ou não entendem uma palavra. Cadê a intimidade com o autor? Com a obra?
 
Onde será que foi morar a Dona Curiosidade?  A jovenzinha Curiosa, sempre jovem, que gosta de saber das coisas, gosta de namorar desconhecidos, fazer amigos, e ampliar seu repertório de conhecimentos, qualidade essencial para quem quer abrir caminhos, desbravar ignorâncias, deslumbrar-se com o universo que está posto diante do seu nariz, por onde andará?  
  
O que faz uma conversa uma conversa?
 
Há que ter um espaço, um tempo para as versões. E também para  diversões. Grande diversão é uma conversa perdida, sem objetivo nem pauta, sem interesse algum a não ser saber do outro, saber o outro.  É assim que se aprende que nada sabemos, nem mesmo de nós mesmos, como somos e o que nos leva a ser o que acreditamos que somos. 
 
Acho que essa foi uma boa conversa que tenho tido comigo mesma. Espero que estejamos conversando, agora, e que você tenha alguma interessante conversa consigo mesmo. 

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