Vinhos e rosas

Por: Sônia Machiavelli

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Atribuo a certas porções genéticas que me constituem o prazer que sinto ao tomar uma taça de vinho. Mas, mesmo tendo aprendido ao longo da vida a distinguir um Chianti toscano  de um Bordeaux francês ou um Riesling alemão de um Alicante alentejano, minha expertise no tema era muito restrita até o último janeiro.  A viagem que empreendi à Argentina e ao Chile no começo deste ano  contribuiu para educar um pouquinho meu paladar.

As degustações me ensinaram que vinhos têm personalidade definida, como a maioria dos humanos.  Malbec é extrovertido; Cabernet, denso;  Tempranillo, audacioso; Pinot Noir, assertivo; Carmenère, determinado; Sirah, misterioso; Merlot, aveludado; Tannat, teimoso.  Comecei com estes, mas não me restringirei a eles, posso apostar. Como meu outro nome é Curiosidade, sei que da próxima vez ampliarei este leque. 
 
Além de  ser iniciada no reconhecimento dos traços que despertam o paladar diante da bebida milenar, e na combinação  precisa com carnes, aves e peixes, adorei descobrir com enólogos a etimologia de cada designação de uva.  Malbec  se origina do húngaro Malbek, o primeiro a identificar a cepa e difundi-la na França; depois, em outras regiões do mundo. A mudança do k pelo c aponta para  uma sutileza no comportamento de todo idioma que sofre também influências psicológicas. Em francês, “malbec”, literalmente “mal bico”, alude ao sabor áspero e levemente amargo  desta variedade que faz a boca apertar de leve. Cabernet Sauvignon, capaz de crescer e frutificar em quase todos os climas, vem de caverna (cabernet) e selvagem (sauvignon);  este vinho é portanto “o selvagem da caverna”. Tempranillo está linkado a temprano (no idioma espanhol, “cedo”) pois amadurece antes de outras vinhas,  de forma precoce. Pinot Noir mostra-se  plástica : entre folhas, o cacho remete a um pinheiro negro invertido.  Carmenère? Tem raiz em carmim, que é a cor das folhas desta parreira assim que o outono chega ao auge. Merlot é melro em francês; e melros são pequenos pássaros negros, bastante comuns  na Europa. O vocábulo pode ter-se originado na comparação da cor preto-azulada das uvas maduras com a das aves, ou do fato de os pássaros  baixarem em bandos nas vinhas, antes da colheita, representando verdadeira praga. Syrah é das mais antigas cepas do mundo, pode ser até aquela do vinho que embriagou  Noé, mas o nome pertence ao léxico persa e quer dizer “remédio do rei”. Quanto à Tannat, diz a lenda que foi a alta concentração de taninos que motivou a escolha de seu nome. 
 
E  o que são mesmo taninos, de que tanto se fala quando o assunto  remete a vinhos?Substância  encontrada em sementes, madeiras, folhas e cascas de frutas,  quando ingerida leva à língua e ao palato sensação típica de secura. Defensores das plantas contra ataque de herbívoros, taninos precipitam as proteínas na boca dos animais. Como na  saliva humana  estas são abundantes, nossa percepção é rápida e acentuada. Os taninos do vinho podem vir das uvas  ou da madeira dos barris de carvalho onde são armazenadas  no processo de vinificação. O tanino torna  a textura do vinho  encorpada e estruturada, mas quando em excesso pode transformar a bebida em rude  e dura. Um nível equilibrado de adstringência é um dos atributos sensoriais mais elogiáveis no vinho. 
 
Foi tomando um Torrontés que migrei do capítulo dos taninos para o dos vinhos frutados. Perfeito como aperitivo refrescante, ou para acompanhar os sabores delicados de peixes e mariscos, este vinho dourado é produzido unicamente na Argentina. Nasceu em Mendoza e tem uma história muito interessante, que os mendocinos  gostam de contar. Foram os jesuítas os responsáveis por sua introdução  na pequena vinha do Colégio Nossa Senhora da Boa Viagem, ao cruzarem cepas de uvas Itália e Moscatel.  Com o tempo, a nova cepa conviveu misturada a outras sem que os viticultores notassem se tratar de vinhedo diferente. A identificação se deu em Lujan de Cuyo, depois de processo complexo e acidentado, pois não havia categoria onde enquadrá-la. Reconhecido internacionalmente desde o final do século passado como assinatura do vinho branco argentino, o Torrontés me conquistou com seu aroma que lembra jasmins, gerânios e rosas. 
 
E por falar em rosas, perguntei ao proprietário de uma das bodegas que visitei a razão da presença de roseiras à entrada de todos os vinhedos e ele me respondeu que havia uma função mais importante que a estética. Rainha das flores em muitas civilizações, a preferida de Afrodite, deusa do amor e da beleza na mitologia grega,  a rosa acusa rapidamente a presença de fungos que podem destruir uma vinha. Observando as flores,  os vinicultores conseguem agir rapidamente, impedindo o avanço da praga. 
 
 Vivendo a aprendendo, disse a mim mesma enquanto olhava  rosas brancas diante do verde mar das parreiras; e pensei que levaria comigo para sempre na memória a delícia daqueles dias. Foi impossível não fazer uma  associação  com a trilha sonora do filme do diretor Blake Edwards, ganhador de um Oscar, e que se imortalizou na voz de Frank Sinatra: The days of wine and roses,/ Laugh and run away,/Like a child at play,/Through a meadowland,/Toward a closing door,/A door marked never more,/That wasn't there before// The lonely night discloses,/Just a passing breeze,/Filled with memories,/Of the golden smile,/That introduced me to,/The days of wine and roses,/And you! 
 
O filme, Dias de vinhos e rosas, que alavancou as carreiras de  Jack Lemmon e Lee Remick, teve origem no romance escrito por JPMiller. Já foi  série de TV na Inglaterra,  peça de teatro nos EUA, e no final do ano passado Fábio Assumpção a levou ao palco no Rio de Janeiro. Mas  sobre isso escrevo outro dia.

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