Noite de Révellion

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

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Lorena era uma  mulher de meia idade, de poucas posses, beleza comum e sorriso triste. Vivia sozinha, tinha ocupação, há anos, numa repartição publica , pouco produzia, relacionava-se  mal com os colegas, quase isolada sustentava-se de sonhos. Trabalhava o ano inteiro, vivenciava a realidade fria de sua vida, mas no mês de dezembro, em suas férias, sua rotina mudava. Ela ia às lojas de departamento, muito grandes,  onde se permite o anonimato, circulava por elas, escolhia roupas, muitas roupas, com muito brilho, lenços, echarpes, brincos e pulseiras, anéis e colares, sapatos, sandálias  e bolsas, cremes e perfumes, que após selecionados, experimentava, até montar um traje completo para uma noite de Réveillon. Nada comprava, mas voltava lá, várias vezes, para certificar-se de que suas escolhas estavam coerentes. Em seu interior criou uma fantasia que, aos poucos, ia tomando forma e se transformando em realidade. Ansiava por um encontro, numa imaginária festa de final de ano, em um salão todo iluminado e ornamentado com muitas flores, onde rodopiasse ao som de músicas inebriantes. Este deveria ter uma extensa varanda onde pudesse observar a luz do luar, sentir a aragem da noite e o perfume das plantas. Diante da visão estonteante dos fogos espocando, despedir-se-ia daquele ano envolvida numa névoa de felicidade. E estaria, deslumbrantemente, vestida.

Sozinha em sua casa, em seu desvario, imaginou-se produzida para a festa, sendo convidada por alguém especial que realizasse seu sonho. Esperou o telefone tocar ou a campainha, mas nada se concretizou. Uma taça de champanhe barata foi o que lhe restou, um vestido velho e a solidão de mais uma noite de Réveillon sozinha. Acordou, no Ano Novo, pronta para recomeçar. Dezembro chegaria, rapidamente, e, novamente, iniciaria sua caminhada pelas lojas. A ilusão não acabara.

                                   

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