Penas e plumas

Por: Eny Miranda

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Os primeiros ruídos ou não foram ouvidos ou passaram despercebidos, já que a atenção se prendia à leitura. Aos poucos, porém, o som de pequenos esbarrões, impactos mais consistentes - provavelmente em uma superfície dura - foram ocupando o ambiente e atraindo a atenção. Do silêncio do escritório já os distinguia perfeitamente. Era como se houvesse mais alguém em casa, mas - tinha certeza - não havia.

Engraçado... apesar de saber-me sozinha, a alma não sentiu medo, sequer um sobressalto; o coração também não acelerou seus batimentos. Sentia, sim, ali, a presença viva da paz, animada agora por “vibrações” audíveis. Mas a razão, esta incrédula parcela humana, conjecturava: teria algum “amigo do alheio” penetrado sorrateiramente? Não podia ser - as portas estavam trancadas, qualquer tentativa de invasão produziria barulhos, e bem característicos. E esse “despertar sonoro” já durava alguns minutos (quantos?), sem que se ouvisse nada “francamente amedrontador”, como a sensação de presença ou voz humana.

O telefone interrompeu tais considerações, e o caso foi esquecido. Os ruídos haviam cessado.
Mais tarde, na sala, encontro um pardal no espaldar de uma cadeira. Logo que nota a minha presença, pia bem alto, levanta voo, busca, insistente, o azul, e é sempre interceptado pelo vidro da janela: cambaleia e volta a pousar, biquinho entreaberto, cansado das dolorosas tentativas de fuga. Observo o resfolegar assustado daquele corpinho frágil - alma de cristal coberta de penas: tantas, e tão expostas, na pequenina criatura. As penas o deixam, contudo, leve. Lembro-me dos ruídos, tranquilizo-me: não era, afinal, o imprevisível, o estranho e temível bicho-homem, cujas penas ocultas podem pesar tanto, e cujos atos tantas vezes não levam em conta pena de ninguém. Era outro animal, e os outros animais costumam ser transparentes, sem subterfúgios, sem falsas justificativas para atos injustificáveis.

Uma profunda ternura por aquele companheirinho, exausto e indefeso, e uma enorme vontade de mantê-lo um pouquinho mais junto a mim, crescem na alma: acarinhar a sua cabecinha, desculpar-me pela dureza da falsa liberdade oferecida pelo vidro...
A linguagem da alma é imediatamente entendida pelo corpo e traduzida no abrir da janela, no acompanhar com os olhos o voo sem rastros, coração aos saltos, mas alma serena. Serena e meditativa.

Aquela sensação anterior, o que significaria? Não sentira medo ao notar movimentos estranhos em casa - trancada, é certo, eu sabia. Mas por quê? Não seriam eles totalmente estranhos? O que de comum pode haver entre o homem e o pássaro? Que tipos de emanações provêm desses animaizinhos, que nos envolvem e acalmam? Tantas vezes me sobressaltei com barulhos em casa! Por que não agora? E se fosse um homem, teria eu pressentido o perigo e me assustado, mesmo antes de vê-lo? E por que - Deus! - cabe ao meu semelhante representar esse perigo?

Não tenho respostas para essas indagações, mas uma coisa fica bem clara para mim: no peito dos pássaros, penas são plumas.

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