Em nome da “prática”...

Por: Maria Luiza Salomão

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Em nome da prática, rudezas. 

Em nome da prática, impulsividades. 
 
Em nome da prática, insensibilidade.
 
Em nome da prática, ideias abortadas. 
 
Em nome da prática, belezas destruídas. 
 
Em nome da prática, vidas destruídas.
 
Em nome da prática, vaidade, medo, violência, desespero, autoritarismo, ausência de pensamento. 
 
Quando escuto “é mais prático” começo a temer pela continuidade do pensar; pela continuidade do sentir; temo o risco de destruição de laços afetivos, sociais,   
 
A  “praticidade” pode ser atalho ou pode ser desvio, mas o pior mesmo é quando se torna álibi centralizador. Alguém elege (ou é eleito, tanto faz) como tendo a melhor visão do “preto no branco” (sem cinzas); que define o quadrado onde talvez devesse nascer melhor o redondo; que elimina belas curvas em sacrifício da linha reta, definida “praticamente”.  
 
Da minha experiência tenho o aprendizado de que, para alguma coisa engendrar firme, para criar raízes fundas, é necessário tempo, ou tempos. Não tempo passivo de resignação, mas tempo ativo de germinação, que é modulado, lento, processual. É uma ação peculiar, a que engendra uma tomada de decisão.  Não é adequada para as massas, para as multidões, em geral acéfalas, apressadas, e pedem líderes de vozes tronitruantes, messias salvadores da Pátria, a querer algo simplificado, sem reflexão, “prático”.   
 
A ação peculiar que engendra, que medra, que vinga, que faz prosperar, que permite desenvolver, ela circula de boca em boca, boca-a-boca, boca-ao-ouvido, é esférica, circular, elíptica.  É ação curvilínea, de vaivens, formando bordados, brocados. Ação que sobrepõe vozes, até alcançar o coral harmônico.  A princípio, algaravia, depois canto orfeônico.  Há método e liberdade quando se cria espaços de expressão visando algo maior, coletivo.  Coordenação e dispersão.  
 
E em nome o pragmatismo pode ser esquecida uma conquista humana. Se bem que não uma conquista definitiva, ela é feito uma Estrela Polar, que guia, inspira, unifica almas cansadas de serem submetidas, escravizadas, excluídas.  O que pode ser esquecido, em nome do pragmatismo?  
 
- Ela, a Democracia. 
 
O que seria de todos nós, sem essa bela utopia?   

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