Da ausência de Lulu

Por: Angela Gasparetto

310733

De dentro do carro, na curva da estrada, diviso uma casa velha, com rebocos se soltando e um abacateiro tremulante aos fundos.

Sinto-me acometida por estranho sentimento de tristeza e abandono. Isto tem me acontecido frequentemente nos últimos tempos.

Esta casa velha com rebocos se soltando e com o abacateiro me dão a sensação de objetos perenes, imutáveis; eles estão lá há muitos anos, firmes e imortais, só você não se encontra mais aqui, Lulu...!

Então, depois que consegui identificar este sentimento, a minha tristeza tem um nome. É a ausência de Lulu, minha mãe, que se foi desta "eterna" Terra.

Aqueles galhos retorcidos que passam zumbindo na estrada também permanecem ali, menos você, Lulu. A casa antiga diante da qual passava todos os dias a caminho da escola, também continua lá; eu a vi esta semana quando fiquei sem o carro e passei de ônibus de volta do trabalho. Tudo, tudo está lá, menos você, Lulu.

A escola, a rua onde moramos assim que nos mudamos para a cidade, as flores do jardim da vizinha de muitos anos. Tudo. Mas além da tristeza que sinto, a impressão que tenho é que estas coisas e objetos também ficaram repentinamente solitários.

Por outro lado, esta mesma sensação de desamparo é passada quando visito lugares a que nunca fui, caminhos que vão a lugar nenhum, estradas sem saídas, alamedas pouco visitadas.

São sim, são também estes lugares a que nunca ninguém vai, ou que ninguém vê, flores que nascem do nada na estrada, um arbusto de vida incipiente, esta existência desnecessária. Tudo, tudo vive e traz um sentido sem sentindo, um vazio do não sei por que, um nada que de repente remete ao desespero e a dor.

Tudo, a terra, o sol, a chuva, as plantas, a vida, tudo permanece. Tudo continua seu ciclo cego, menos Lulu que não tem mais o direito de caminhar por aqui.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras