Livro desconstrói clichês sobre paisagens naturais

Por: Clarice Gulyas

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Como decisões políticas, processos biológicos e costumes locais podem influenciar a transformação de diferentes paisagens no mundo? Novo livro de autoria da bióloga brasiliense Nurit Bensusan reúne curiosidades históricas e culturais com o objetivo de desconstruir mitos e clichês sobre paisagens e faz um alerta sobre a importância da conservação desses espaços. A obra 7 Histórias de Paisagens e Uma Biografia, da editora Mil Folhas (ligada ao Instituto Internacional de Educação do Brasil - IEB), foi lançada em dezembro, em Brasília (DF). Na ocasião, será comemorado o aniversário de 18 anos da ONG, que desenvolve e fortalece ações voltadas para a sustentabilidade e a conservação do meio ambiente. 

Com linguagem acessível para todas as idades, o livro aborda em suas 60 páginas e ilustrações diferenciadas, assinadas pela artista plástica Ana Cartaxo, os principais processos de transformação de paisagens pelo mundo, passando pela savana africana, a Amazônia, os bosques de Minnesota, Tierra del Fuego (ilha localizada ao sul da Patagônia) e Madagascar. O livro também desassocia o fogo com a destruição da natureza, citando exemplos da importância de queimadas estratégicas e até da caça de animais para a renovação ou reconstrução da fauna e da flora em alguns países e continentes. Considerada símbolo da "natureza intocada", Nurit Bensusan classifica a Amazônia como uma floresta cultural que é fruto de séculos de atividades humanas, que chegou a ser habitada por cerca de 8 milhões de pessoas durante a descoberta das Américas. 
 
A autora, que lançou recentemente a obra Dividir Para Quê? - Biomas do Brasil, conta que a ideia para o tema do livro surgiu a partir do gosto pela coleção de histórias sobre as paisagens e também por notar a percepção errônea que as pessoas têm sobre esses espaços.
 
 "Muitas vezes as pessoas enxergam as paisagens como uma foto ou cenário, ao invés de um processo em constante transformação. Achei importante mostrar que as paisagens têm muita história e este conteúdo influencia a cultura das pessoas, assim como as pessoas influenciam as paisagens. Esse é um livro de fácil compreensão para qualquer tipo de público e que tem uma ilustração muito bonita e que significa um gesto de amizade transgeracional, onde adolescentes e adultos podem ler e conversar sobre o assunto.", conta.
 
Em 7 Histórias de Paisagens e Uma Biografia, Nurit Bensusan propõe a reflexão sobre o conceito de paisagens naturais. Mas, afinal, “o que é natural? Algo que não tem influência humana? Mas os humanos não são seres naturais? Por que fazer essa distinção?”, questiona a bióloga e engenheira florestal.
 "Essa categoria de paisagens naturais que não foram tocadas pelos humanos adquire muita importância para os movimentos de conservação da natureza, que acreditam que as paisagens que valem a pena ser conservadas são aquelas que não foram tocadas pelos humanos. No entanto, o que precisa ser conservado, quando falamos em conservação do meio ambiente e da biodiversidade, são os processos que geram essas paisagens e que mantém e transformam essas paisagens. Não interessa se foram tocadas ou não e, sim, que os processos ecológicos, evolutivos, biológicos, continuem acontecendo”, comenta. 
Na biografia sobre o flamboyant, a autora revela como a planta proliferou-se pelo mundo por sua beleza, mas ao mesmo tempo está em extinção no seu habitat natural, em Madagascar. Para Bensusan, que também é doutora em Educação e mestre em Ecologia, é preocupante a existência de uma preferência maior da conservação de paisagens visualmente mais bonitas.
 
“Nos Estados Unidos, os primeiros ambientes a serem conservados foram os ambientes que as pessoas acreditavam que eram paisagens sublimes, maravilhosas. A ideia é que quando se tem uma paisagem bonita ela vale a pena ser conservada. Os pântanos da Flórida (EUA) só foram conservados quase cem anos depois que os primeiros parques nacionais americanos foram criados. No Brasil, os primeiros parques a serem criados foram o de Itatiaia e o Foz do Iguaçu, que são lindos. Então, quando se tem paisagens como os pântanos e os mangues, que são fundamentais em termos biológicos, mas como não são lindões, parecem que têm uma importância menor. Isso também vale para as espécies de animais.”, afirma.

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