Somos todos selvagens?

Por: Sônia Machiavelli

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Ainda que irritada com a qualidade das salas de cinema em Franca, fui assistir a um dos favoritos ao Oscar 2016, prêmio a ser entregue em março, numa transmissão de TV que alcança milhões de pessoas ao redor do mundo. Levar um  Oscar para casa parece  ainda importante para os  artistas e Leonardo di Caprio, tantas vezes no páreo, pode ver chegada a sua vez.  Se o for, será de justiça, pois ninguém  que tenha assistido a O Regresso deixará  de reconhecer seus méritos como Glass, o protagonista da história que tem como diretor e co-roteirista  o mexicano Alejandro Gonzalez Iñárritu , o  mesmo que ano passado faturou a estatueta com Birdman.  Di Caprio tem poucas falas no filme, de modo que a linguagem facial e corporal  é o que lhe resta para expressar sentimentos densos, brutais, cruéis, em todos os instantes viscerais. “Foi o trabalho mais difícil de minha carreira”, disse o ator. É de se  acreditar.

 Iñárritu sabe fazer cinema; é apaixonado pela arte; tem vasta experiência com a câmera; e desde Babel e 21 Graus surpreende o público com enredos singulares, maneiras exclusivas de contar histórias, análise de temas indigestos ( mas necessários)  como a incomunicabilidade humana. O Regresso mostra a duríssima jornada de um homem solitário, com o corpo gravemente ferido, frente à natureza tão grandiosa quanto inóspita, mas disposto a resistir para se vingar.  O enredo se baseia no romance homônimo de Michael Punke, ficcionista norte-americano de 50 anos, que esticou o título com um aposto explicativo- “uma história de vingança”. 
 
Na pele de Leonardo di Caprio, Glass se vê envolvido em conflito que opõe caçadores de pele. Estamos no início do século XIX, o lugar é o norte dos EUA, quase fronteira com o Canadá (fotografado de forma magnífica por Emmanuel Lubezki).  De um lado há o grupo do capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson); de outro,  a tribo de índios Arikara. Ao ver os homens de Henry sendo massacrados de forma selvagem, Glass, reconhecido guia de montanhas, age em sua defesa. O nó da intriga se configura com a antipatia que um dos elementos do grupo, John Fitzgerald (Tom Hardy) nutre em relação a Hawk (Forrest Goodluck) , o filho de Glass com uma índia. Os atritos que começam por aí vão se converter na tragédia  que consistirá no assassinato do filho, no abandono do pai estraçalhado por um urso,  na fuga de Fitzgerald e no ódio  crescente de Glass.
 
Corpo dilacerado, feridas profundas por todo o corpo, couro cabeludo separado em parte do crânio, garganta  rasgada pelas garras do animal, as chances de sobrevivência do herói parecem nulas. Mas ele consegue recuperar-se, ajudado ora pelo acaso, ora por algumas pessoas a quem encontra enquanto literalmente se arrasta  pelas escarpas de neve. Imbuído da certeza de que enquanto puder respirar deve lutar, e, sobrevivendo, chegar até Fitzgerald para concretizar sua vingança, ele avança.  No romance, a jornada dura dez meses; no filme, de 151 minutos, parece mais curta. E ambos, literatura e cinema, nos proporcionam  bom panorama do que era, em 1823, a  caça e o comércio de peles, bem como a carnificina que caracterizou a luta entre brancos e índios pela posse da terra e de seus bens na América do Norte. 
 
O inverno indomável; a solidão indescritível; a iminência de ataques dos índios; o corpo ameaçado de entrar em colapso a qualquer momento; a falta de alimentos- que o obriga a comer um pedaço de fígado cru de búfalo; a ausência de abrigo- que o leva a se agasalhar dentro da barriga de um cavalo morto-  são situações que preenchem o retorno de Glass e me fizeram viajar numa linha histórica à Era Cro-Magnon.  E em certos instantes me perguntei se algumas cenas não seriam excessivas, como a queda do cavalo sobre o pinheiro enregelado. Ao mesmo tempo me lembrei de quantos momentos catastróficos nos sobrevêm quando tudo de muito ruim parece já ter sido experimentado. Nada sabemos do minuto seguinte.
 
O  filme traz implícita  essa qualidade de ser o que as imagens mostram mas ser também o que se consegue ver através delas. Amplo em metáforas, O Regresso  nos induz a pensar nas jornadas diárias carregadas de imprevistos nem sempre administráveis; nas surpresas desagradáveis do cotidiano; na complicada relação com o semelhante dissimulado;  na força avassaladora da natureza; no frio, na frieza, no enregelamento dos sentimentos; na crueza da dor; nas traições; nas múltiplas violências; na venalidade; na compaixão  evanescente deste nosso começo de século XXI.  E no ódio, sentimento que tanto alimenta quanto consome. 
 
E como nada é gratuito em uma obra de arte, e as cenas se acumulam em nossa mente na formação de sentidos, pensei, diante de tantos atos brutais mostrados pelo filme, se o título  (O Regresso) se refere apenas à volta  do herói ao forte para se vingar do homem que lhe fez tanto mal, ou se também faz alusão ao nosso grau de retorno a certa animalidade enquanto humanos. Sob  este segundo aspecto, é bem loquaz a cena que  exibe junto ao corpo do índio dependurado a um galho de árvore, já enforcado pelos brancos, a placa de madeira com os dizeres: “Somos todos selvagens”. 

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