fonema

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Houve tempo em que emprestei os olhos da vaidade, comprei lentes de aumento, o azul ficou mais intenso, a alegria mais barulhenta. Caminhava nas nuvens e, ainda que repousando, liderava legiões e conquistava continentes, pilotava naves.

Apaguei aquele olhar e aposentei as lentes.
 
Agora que começo a enxergar, percorro becos do entendimento. Meus pés escorregam em pedras lodosas, mas o coração bate compassadamente.
 
No épico extraordinário – a caminhada humana – não me coube papel de ator, mocinho ou bandido.
 
Busco achar minha participação na trama superior, descubro que não me reconheço num capítulo, sequer num período.
 
Desde que me entendo, dei-me tanta importância e, agora, procuro alguma, porventura dispersa na obra e nada encontro. Vejo que não sou ator nem capítulo, nem parágrafo.
 
Penso ser um vocábulo substantivo. Consola-me isso: um vocábulo por certo, sustentando a sintaxe que compõe o romance divino! Um vocábulo, por certo.
 
Olho, porém, a roupa empoeirada – tantas quedas, tanto pó, alcanço alguma compreensão. Não sou vocábulo substantivo.
 
Agarro-me com ambas as mãos ao galho último, satisfaz-me ser palavra adjetiva, dispensável algumas vezes, algumas vezes condutora do belo e do perfume.
 
Olho meus rastos ao longo de veredas e caminhos e não há dor nem colorido nas pegadas. Constato.
 
Sou mero fonema no romance humano.

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