Um pé de abóbora

Por: Isabel Fogaça

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No início do ano de 2014 meu tio Marcelo fez uma viagem junto do meu tio Nenê. Eles tinham o intuito de visitar parte da nossa família que mora em Ouro Fino-MG. Porém, não sabíamos que esta seria uma das últimas viagens de Marcelo.

Marcelo era o tio que eu via como menino. Nos Natais em família, eu sentia que se alguém tirasse “Marcelo, Marmelo, Martelo” de alguma gaveta, ele pediria para ver as figuras, além da docilidade do livro. Meu tio era talentoso, tocava guitarra como ninguém. Era com ele que eu bebia cervejas nas noites de Ano Novo quando meus avós iam dormir. Meu tio tirava os sorrisos mais sinceros do rosto enrugado do meu avô, e ele dizia: “O Marcelo tem esse jeito brincalhão, fica fazendo a gente rir à toa!”. E quando meu tio virava as costas, meu avô continuava orgulhoso: “Esse meu filho nunca me deu trabalho”. 
 
Eu observava tudo aquilo com grande admiração, gostava de ouvir meu tio falando, ainda ouço sua voz dizendo em meu ouvido: “Vamos ficar hoje aqui, linda. Não fique brava com o tio!”. Ele era doce até para dizer não. 
 
Quando meu tio se foi repentinamente, um pedaço do meu coração murchou, como uma flor bela e perfumada que some do jardim. Quando ele morreu, senti que parte de mim também morrera. Eu provei minha mais intensa dor, por isso, muitas vezes quis eternizar meu tio, dizer ao mundo como ele foi um artista brilhante, uma pessoa gentil, sensível e carinhosa. Olhei suas fotos por várias vezes depois de sua partida, imaginei suas histórias em meus livros, sua cor favorita tatuada em meu tórax. Mas minha mãe teve uma ideia melhor.
 
Na ultima viagem a Ouro Fino que meu tio Marcelo fez, ele trouxe uma abóbora que  nem chegou a comer. Após seu falecimento, meu tio Nenê deu a abóbora à minha mãe, e ela plantou as sementes. Abóboras são danadas, vingam facilmente em qualquer lugar, seu doce é maravilhoso, assim como a variação de seus pratos salgados. E assim tem acontecido, nosso santuário é um pé de abóbora que corre pelo chão, cheio de vontade de viver.

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