A vida avança

Por: Sônia Machiavelli

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Minha paixão pelo cinema teve início na  infância, quando comecei a frequentar as matinês do Cine Avenida, na Presidente Vargas. Adorava as tardes de domingo, quando conseguia juntar dinheiro para comprar ingresso. Às vezes  ia com amigas; outras, só. Mergulhava naquelas histórias tão distantes da minha realidade, com cowboys atirando no faroeste americano, viajantes passando apuros em paisagens exóticas, gordos e magros  fazendo rir em cópias degastadas pelas reprises. As chanchadas brasileiras me apresentaram Oscarito, Grande Otelo, as Cantoras do Rádio- Marlene, Emilinha, o galã Cil Farney, a estrela da Atlântida, Eliana Macedo, que dizia assim: “O petróleo não é meu, nem seu, nem dele; o petróleo é nosso!” Gentes, que filme era esse? E houve Os dez mandamentos, aguardado com ansiedade, quatro horas de duração que não sentíamos cansativas. Tudo era bom, tudo era novidade, e nem tinha pipoca, quando muito um saquinho de balas Pipper. 

Nesta altura, a televisão chegava ao Brasil e, bem depois, à casa dos  pobres de maré de si, como eu, como milhares daquele país saindo do perfil eminentemente agrícola, na atualização dos professores de história. Muitas pessoas diziam que ela mataria o cinema; entretanto, filmes continuaram sendo produzidos e  Oscar, Globo de Ouro  e outros prêmios  permaneceram disputados e conferindo valor a quem os recebia. É verdade que metade das salas de exibição se transformariam a partir dos anos 80 em templos evangélicos, ao mesmo  tempo em  que vídeo locadoras começavam a pipocar por todo o país. A venda de DVDs, crescente até a primeira década deste nosso século, permitiu por longo tempo a um vasto contingente de brasileiros ver filmes em casa, na telinha. Mas eis que a roda incansável do engenho humano de repente passou a oferecer nova maneira de usufruir deste lazer. O tal serviço de streaming, que já conta com 75  milhões de assinantes ao redor do mundo, chegou ao nosso país de forma avassaladora e  contribuiu para levar ao fechamento das  locadoras que ainda resistiam.
 
Acredito que ninguém segura mais a Netflix, que disponibiliza filmes e séries cinco estrelas por preço acessível, para a gente ver à hora que quiser, no local onde estiver, na plataforma que preferir, inclusive no celular. Tornei-me assinante há poucos meses e, desde então, naveguei por mares bravios no século XIII acompanhando a saga de Marco Polo; pulei aos Quinhentos e me indignei com os abusos cometidos pelos Bórgias; avancei no tempo e conheci a Colômbia violentada por Pablo Escobar; bisbilhotei um presídio norte-americano feminino de segurança (aparentemente) máxima e concluí que, de fato, orange is the new black; descobri os bastidores de uma disputada, intrigante e criminosa campanha presidencial nos EUA protagonizada pelo primeiro casal- Frank e Claire, em House of Cards.  E desde meados de janeiro aterrissei em Downton Abbey, cuja história se passa numa mansão no interior da Inglaterra, perto da linda e secular York, onde vivem a família Crawley e dezenas de criados no começo do século XX. 
 
Retratando a diferença entre os dois grupos numa sociedade altamente estratificada, na qual os empregados sabem muito sobre os patrões que sabem pouco a respeito deles, o autor e roteirista da série, Julian Fellowes, conquistou prêmios e público. É mesmo um trabalho primoroso de cinco temporadas (a sexta está em curso e chegará ao Brasil em março), que se assistem avidamente. O enredo tem início em 1912, ano da tragédia do Titanic, e chega quase ao final dos anos 30; tempo de enormes transformações para o mundo ocidental, mostradas no microcosmo que é a propriedade inglesa.
 
Mais do que cenários faustosos, figurinos espetaculares, personagens surpreendentes, roteiro impecável, diálogos realistas e atores de alto nível, o que mais me atraiu e fez pensar foi o  fato de que a série desvela o fim de uma era e aponta o nascimento de outra.  Nesse processo de transição do velho para o novo, as dores e cicatrizes da Primeira Grande Guerra, a conquista  feminina ao voto, a crescente coragem da mulher em falar sobre sua sexualidade, o nascimento do socialismo, o enxugamento dos excessos em favor das necessidades básicas, o encurtamento das distâncias decorrente da rápida adesão aos carros; a possibilidade de falar a alguém que se encontrava a quilômetros de distância- foram algumas das muitas conquistas que permitiram fixar um desses  momentos decisivos  na evolução da civilização.                                                                                                                                                                                                                                                                                                               A imperturbável marcha da tecnologia ignorou os espíritos conservadores, melancólicos  e assustados, seguiu  intrépida mudando a face do mundo com a eletricidade, o telégrafo, a máquina de datilografia, o telefone, o carro, os eletrodomésticos, a vitrola, o rádio, o cinema  e uma série de invenções que melhorariam muito a qualidade de vida de todas as pessoas.
 
Numa das primeiras cenas da segunda temporada, o sábio mordomo  Charles Carson (Jim Carter), depois de surpreender a criada que havia juntado dinheiro para comprar uma máquina de escrever, objeto excêntrico que causava  espanto, diz à moça (pretendente a uma vaga de secretária na cidade próxima) que “se não houvesse mudanças que nos transformassem, se tudo fosse sempre da mesma forma, qual a graça e o sentido de viver?”
Hoje somos todos  testemunhas (e protagonistas) de mais uma era em que muitas coisas deixam de ser feitas como eram para serem oferecidas de forma mais aprimorada à humanidade.
 
David Bowie havia dito nos anos 80 que “em breve as pessoas ouvirão a música que quiserem e assistirão aos filmes que desejarem pagando pouco e recebendo o produto de modo imediato onde estiverem”.
 
Gênios como Bowie são proféticos ao reconhecerem as mudanças antes que elas se façam sentir de forma concreta para todos. E compreendem, talvez pela implícita lucidez que os distingue, que transformações demandam o esforço da aceitação, até que se tornem obsoletas e morram, abrindo espaço, de novo, ao novo.
 
O movimento é característica primeira da vida, dizem biólogos, filósofos e poetas como Camões que abre um dos seus mais conhecidos sonetos com estes versos: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/ Muda-se o ser, muda-se a confiança/ Todo o mundo é composto de mudanças/ Tomando sempre novas qualidades”
 
  Ou como diz o ditado brasileiro, “quem fica parado é poste”.

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