In útero

Por: Eny Miranda

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Por que as tempestades me amedrontam e me atraem? Por que me assustam e me fascinam? Não é segredo, nem novidade, essa humana característica. Mas suscita reflexões, porque experimentá-la é sentir como novo o vivido. Talvez por isso eu goste tanto de falar sobre esses fenômenos temporais.

Primeiro é o vento, percebido apenas pelos silvos finos atravessando as frestas das portas e janelas e, depois, fazendo com que elas estremeçam e gemam, à força de seus dedos e mãos invisíveis. A seguir, são os ruídos de objetos sendo arrastados, rua afora, correntes rangendo, como nos filmes de suspense. A árvore que cresce à frente da casa vizinha é o meu termômetro. Ela baila um bailado estranho, belo e, ao mesmo tempo, macabro, quando tempestades fortes se aproximam. É como uma senha para as nuvens que, baixas, pesadas, chispando, tronando, reboando, aguardam. Como uma ordem para abrirem seus ventres e enviar seus exércitos de gotas, líquidas ou sólidas.

Encolho-me na cama. Passa da uma da madrugada. O sono, o vento também o leva, palavra desgarrada como folha solta, anacoluto na sintaxe da noite. Estou segura, imagino, ancorada em meu quarto, sob as cobertas que me protegerão, pelo menos, do frio úmido que deve chegar. Penso nos que estão à deriva, pessoas e animais, também assustados e, provavelmente, nada fascinados pelo que ouvem e veem. Compreendo que a sensação de segurança faz parte do jogo de medo e sedução. Faço por eles - os à deriva - uma oração breve. Muito breve, porque as nuvens são prontas em sua resposta.

A água nasce e cresce, poderosa, bombástica, espetaculosa. Não poupa nada, nem ninguém. É chuva de vento, como diziam os antigos. O telhado do prédio ao lado parece que vai se soltar e cair sobre o nosso. O susto faz as cobertas serem puxadas até o pescoço. Estou num útero às avessas - o líquido fora dele. Um útero construído pelo homem: cimento, tijolos... Não há voz nem pulsar de coração materno. Contudo, é abrigo. Indiferente aos meus temores e atrações, mas abrigo. E abrigos geram sentimento de segurança, e esta, de bem-estar. O bem-estar, por sua vez, motiva pensamentos soltos, livres, fluidos, fugidios - estranhas associações e dissociações mentais. E então é aquele penetrar espaços nebulosos... aquele pisar terrenos movediços... aquele flutuar à mercê de nexos e desnexos...

E é o desvelar-se a curta distância existente entre medo e excitação, êxtase e sono que, ao meu coração protegido, delineia vagas respostas no sedutor horizonte tormentoso.

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