Jogral

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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Pequenas causas e tantas consequências!

A princesa ficou órfã. Levantou a tampa do baú da herança, retirou coroa, cetro, tesouros e poder. Junto, veio a responsabilidade. A mulher não era inteligente e quis buscar um companheiro para com ele dividir obrigações.
 
Não era religiosa, mas cumpriu a tradição: foi ao templo, consultou o oráculo. Ele, obediente ao costume, orou durante cinco dias e cinco noites, ouviu dezenas de deuses. Depois passou aos sábios da corte a tarefa simples de traduzir o enigma que recebera das divindades.
 
Os sábios do reino nada sabiam dos desígnios dos deuses. Aconselhavam sempre e muito, a fim de continuarem recebendo as benesses do elevado ofício. Assim, depois de uma noite insone, concluíram que o consorte da rainha deveria ser um jogral com tais e tais características. 
 
A princesa guardou no peito a estranheza e mandou um arauto ao castelo do conde, ao castelo do duque, ao castelo do arquiduque, mandou que o edito fosse proclamado nas aldeias e nas tavernas do reino. 
 
Desprevenido, eu restava feliz em taverna localizada a meio caminho entre Nada e Coisa Nenhuma. Pegada ao peito, descansava minha viola, enquanto minha cabeça dormitava no colo de jovem camponesa.
 
Fui, de repente, arrancado do enleio. Informaram-me tudo: estúpido viajante me achara parecido com a descrição feita pelos conselheiros do reino, denunciara-me. A guarda real viera me arrancar com mãos rudes do colo da camponesa, buscar-me para o casamento.
 
Só me soltaram diante do trono, diante de uma mulher vestida de ouro da cabeça aos pés. 
Tanto brilho ofuscou-me os olhos, ofuscou-me o raciocínio.
 
— Caso não.
 
Severo, um conselheiro explicou:
 
— Ou casa, ou é jogado na caverna do dragão.
 
Até me decidir entre dragão e a mulher, instalaram-me comodamente no último calabouço da masmorra.
 
Lá do fundo dos porões, os criminosos do reino, a gentalha, os guardas e os servos foram ouvindo os acordes de minha viola que insistia em não cochilar. E, assim, durante três dias e três noites, a plebe me ouviu.
 
Então, o coração do carcereiro começou a ouvir e a compreender a canção que era também dele.
 
Na quarta noite, o carcereiro acordou e foi abrindo, uma a uma, todas as celas. Depois alumiou corredores, ensinou caminhos no labirinto. Apontou-me a direção do amanhã.
 
Acordei a dama de honor, ela veio comigo, montada na garupa. No coche da princesa faltava agora um cavalo branco.
 
Quando o sol arregalou os olhos, ficou surpreso. Depois se recompôs e ficou, também, ouvindo a cantiga do Calunga que minha viola entoava:
 
 No meio do caminho despertei...                                    
— Que se dane a princesa,
O dragão, o reino e o rei.
 
E sem nobreza em meio ao povo
Eu fui cantar um canto novo
Que é do povo a minha lei.

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