Mãe quântica

Por: Maria Luiza Salomão

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AINDA não vivi a experiência de ser avó, quase certo não serei bisavó. Foi importante para mim o convívio com a bisa, que reinava solitária, em doce quietude recolhida, e aninhada por duas tias-avós que não se casaram - tia Isolina e tia Olga.  Antigamente se casava cedo; avó moça era comum.  

Ser mãe, hoje, me oferece interessantes vivências, uma delas é rever minha posição de filha inúmeras vezes: quando filha-criança, em período escolar, filha-adolescente. E, agora, filha-mãe madura, mãe de filhos adultos!
 
Quando bebê, ou criança, a mãe é deusa, capaz de sortilégios, rainha, de poder inigualável. Em período escolar, a mãe é confrontada com figuras importantes, como a professora, ou a mãe de um amiguinho, e é possível o sentimento dos filhos se desdobrarem, conflitarem, intensificados. Abre-se um universo de equívocos e de novas compreensões sobre o ser enigmático e poderoso, em tempos e espaços distintos. Para o filho, para a filha, para a mãe.
 
Há que compatibilizar, na mente do filho/filha, o ser mulher e a entidade mítica, Mãe!  Na saúde, o olhar do filho adulto à mãe é crítico, e a necessidade de parir, na filha adulta a mãe-por-vir, torna a “mãe da infância”, a “mãe do período escolar”, a “mãe do adolescente” dobras de um origami. Superposições de visões. Daí a difícil diferenciação, des-identificação do vínculo.
A mãe segue enigmática para os filhos adultos.  
 
Do ponto de vista da mãe, é vertiginosa a passagem do filho bebê para a criança falante, depois para o adolescente, finalmente, para o adulto, homem ou mulher!  É meio mágico (e turbulento) a mãe observar o filho aprendendo a soltar da sua mão, da sua sombra protetora à busca de um caminho próprio. Permitir, internamente, o seu voo para fora da relação dual, aprisionante para os dois, mãe e filho (a). 
 
Uma mãe saudável torce para que os filhos aprendam a voltar para dentro de si mesmos, e que encontrem novos ninhos e companheiros eleitos, para que tenham, por sua vez, a  vivência de maternidade e paternidade (de si mesmos enquanto adultos e de outros seres que irão criar). 
Para a filha mulher trata-se de aceitar um corpo que abrigará – misteriosamente – uma vida nova, diferente de si. Quando a escolha (na saúde) se materializa e a filha mulher assume a função materna ocorre uma mudança de perspectiva do olhar (para si mesma, para a mãe de origem, para o filho gerado).
 
Na paternidade, há mais tempos e espaços, já que o corpo do pai não se envolve diretamente nesta metamorfose complexa, e na vivência de profunda dependência, absoluta a princípio, do bebê com sua mãe...
 
Todos os olhares passados (e alguns futuros) presentes na gestação do primeiro filho, principalmente, concorrem para essa metamorfose inevitável. A partir do segundo filho acresce a experiência, complexa ainda mais – pode-se ser mãe (ou pai) diferente para diferentes filhos. 
São diferentes as “minhas” mães no percurso da minha vida, até chegar à mãe que sou. 
 
Mamei, desmamei; tive colo, aprendi a andar; balbuciei, aprendi a falar; sofri pequenas e grandes separações do cercado de conforto e das mesmices rotineiras. Fui pressionada a escolher o que buscar, e o que conquistar, o que ter e, claro, o que ser.  
 
Dor gostosa (paradoxos da saúde mental), de saber-me outra, diferente, separada da minha mãe mítica, a da infância, e da outra - mãe da adolescente, que mais não sou. 
 
Os degraus foram queimados abaixo de mim; o tempo corre, os ponteiros não voltam...jamais. 
As narrativas diferem, a cada novo ciclo da minha vida, em relação à figura mítica. 
 
Há um efeito quântico! Sobreposições e interferências do ser que me pariu, me guiou, superposta à mãe que partejo em mim, que interfere na geração de seres iguais/diferentes. Eu me partejo diferente em cada etapa vivida pelos meus filhos, como mãe de crianças/adolescentes/adultos. 
 
A vida cíclica. Mãe é bicho cíclico, desde sempre. Mãe é quântica. 

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