Propostas equivocadas

Por: Sônia Machiavelli

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Cerca de 200 mil escolas públicas e particulares do Brasil deverão encarar em futuro próximo mudanças no conteúdo de várias disciplinas que farão parte da Base Nacional Comum Curricular, uma das estratégias estabelecidas pelo Plano Nacional de Educação para “melhorar” o ensino infantil,  fundamental e médio em nosso País. Interessada pelo assunto por conta de minha formação; por mantermos há décadas no GCN um programa chamado Jornal Escola; porque leciono português para crianças e jovens da  ONG Academia de Artes; principalmente  por ser cidadã de um país que ocupa lugar vergonhoso no ranking que avalia a qualidade da educação, entrei na página do MEC como  muitos outros internautas desejosos de contribuir de alguma forma no debate que vem crescendo desde o final do ano passado. O endereço é www.brasil.gov.br/ base-nacional-comum-curricular

De todas, duas  propostas especialmente, que alteram  conteúdos de História e Português, estão motivando críticas de especialistas nas áreas, educadores experientes, jornalistas, pais de alunos e pessoas com um mínimo de sensibilidade e discernimento para aferir o grau de despropósito do que se quer legalizar a partir de junho.  
 
No que diz respeito à História, a premissa dos autores da chamada BNCC induz, em primeiro momento, a considerar as sugestões relevantes, pois  é  imprescindível  priorizar o conhecimento dos fatos que perfilaram a sociedade brasileira tal como  a conhecemos hoje. Assim verbalizado, o objetivo soa contemporâneo e focado na realidade. É louvável pensar o Brasil atual, com sua cultura, suas conquistas, seus desafios, sua literatura, sua história  e sua singularidade no concerto das nações a esta altura globalizadas. O problema é a escolha dos conteúdos a serem desenvolvidos, pois da forma como a proposta se apresenta, períodos essenciais à evolução da sociedade ocidental serão deletados e substituídos por outros ditos locais ou nativos. Saem Antiguidade, Idade Média e Renascimento, por exemplo, e entram estudos sobre civilizações ameríndias; cultura africana abaixo do Saara nos anos Quinhentos; jornada de San Martin pelos países da América espanhola; independência do Haiti (?),  Revolução Bolivariana. Etc. 
 
Alinho-me com todos que avaliaram as novas opções como amputadoras, pois queiram ou não os  cérebros que escolheram os novos tópicos, nossa organização como sociedade brasileira tem base europeia. Assim, como explicar aos alunos a presença da família real portuguesa no Brasil a partir de 1808  e o papel decisivo de Pedro I na Independência em 1822 sem fazer um link com Napoleão Bonaparte? De que maneira ignorar que, invadindo Portugal, o  corso obrigou Dom João VI a fugir para esta nossa então mui precária colônia? E  como  apresentar o general francês sem  falar das guerras napoleônicas?  E ao falar delas, de que jeito não as vincular à intenção de reconfigurar o estado francês, um dia parte do Império Romano, que por sua vez se construiu pelo poderio militar sobre as cidades-estados da Grécia? 
 
 No caso da literatura, saem do rol de autores a serem lidos e analisados Luís Vaz de Camões, Gil Vicente, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Almeida Garrett, José Saramago e outros. Mas não me perguntem, por favor, por qual razão até o ano passado esses clássicos eram de leitura obrigatória na lista dos melhores vestibulares de nosso país. As questões que proponho são outras. Como explicar aos jovens nossas primeiras manifestações literárias a não ser compreendendo-as como derivadas da produção portuguesa? Por acaso o padre José de Anchieta não se inspirou nas peças de Gil Vicente quando escreveu seus poemas catequéticos? Bento Teixeira não se espelhou em Camões para criar os versos épicos da Prosopopeia?  De que maneira entender a poesia de Gregório de Mattos Guerra, momento único do barroco em sua expressão local, a não ser resgatando o gênero na Península Ibérica? Como não mostrar o neoclassicismo - conhecido em Coimbra pelos estudantes brasileiros que lá foram estudar -  como inspiração  para  versos  árcades que tanta influência exerceram sobre o grupo da Inconfidência? De que modo ignorar o fato de que a temática indígena que alimentou José de Alencar tem suas raízes no romantismo nascido na Europa? Como não relacionar os Cantos de Gonçalves Dias, poeta maior do Oitocentos  brasileiro, com o Almeida Garrett de Folhas Caídas? Desconsiderar que  Machado de Assis  deve muito a Eça de Queirós e que o Modernismo da Semana de 22 repercute motivos do Grupo Orfeu de que participou Fernando Pessoa é ignorar a construção sofisticada de uma literatura que em idioma português alcançou graus de magnificência com José Saramago, Nobel de Literatura em 1999.  O passado não nos explica apenas como pessoas; também como sociedade, cultura, arte. Valorizá-lo é entender o que Guimarães Rosa definiu de forma magnífica: “Escrevemos  no presente futuros antanhos”.
 
A íntegra da proposta da Base Nacional Comum Curricular está na Internet e permite a participação da comunidade escolar e da sociedade civil.   As críticas, opiniões, considerações podem ser individuais ou coletivas, oriundas das redes de ensino ou de movimentos e organizações civis.  Até o dia 15 de março qualquer brasileiro pode deixar lá sua manifestação. Seja você pai, mãe, parente, amigo, professor; seja apenas (e será muito!) cidadão que almeja uma educação que permita amplo conhecimento e  exercício da crítica, entre na página do MEC, leia as propostas do novo currículo e registre seu pensamento a respeito. Nós, brasileiros, não estamos acostumados a isso; só recentemente criamos coragem de ir às ruas para protestar. Mas é importante que comecemos a nos manifestar também de outras formas,  contribuindo para a evolução do país que é nosso, e só a nós enquanto povo compete transformar. Não podemos deixar que a educação, ferramenta poderosa de que dispõem os governos para imprimir seu ponto de vista e sua marca, seja praticada, em seu modo de transmissão de saber, com alijamentos que distorcem o contexto civilizatório, cultural, artístico. É pelo estudo do passado, da linha histórica onde fatos geram consequências, e só milagre é efeito sem causa, que conseguimos interpretar o presente e participar da criação de um futuro melhor para todos. Fora disso o risco de manipulação é bem grande. Diria mesmo que pode ser catastrófico. 

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