Estações

Por: Eny Miranda

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No início, unindo folhas e pétalas, uma a uma, com açúcares e baunilhas no róseo das pequeninas mãos, ela construiu um jardim de mil aromas, formas e cores.

Mas o sol se fez a pino, exigindo regas constantes para a sua manutenção. Realizou o trabalho, com entusiasmo e vigor.

Contudo, foram os longos dedos da luz poente que, de fato, secaram pétalas, das flores fizeram frutos e, aos poucos, douraram e libertaram cada folha daquele jardim.

Chegou o vento. A porta da noite se abria. Debruçou-se, então, sobre a seda e a lã. Fiandeira de cores e dores, mãos vividas, teceu um manto resistente e flexível, capaz de agasalhar-lhe o corpo esmorecido, envolver-lhe o fragilizado coração e cobrir-lhe a alma, ainda inteira. Na urdidura dos fios, a sucessão das cores e das formas alternava-se entre o azul, o branco e o cinza; entre o curvo, o reto e o oblíquo.

Uma palavra-lâmina, porém, engendrada em absinto com raros toques de mel, polida em prata e afiada em widia, cortou os fios e desfez o manto, resfriando-lhe o corpo, esvaziando-lhe o coração e comprometendo-lhe a inteireza da alma.

Foi quando viu aquelas sementes rebrotando em seu desfeito jardim.

Partiu, então, em busca de outra primavera.

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