lágrimas de pedra

Por: Luiz Cruz de Oliveira

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 — Você conhece o mar?

— Não.

— Não?!
 
A interrogativa era tão gordinha, tinha tamanha cara de menino espantado que me furtei a explicações. Deixei o amigo abobalhado lá na esquina, fui embora.
 
Depois de tantos arrecifes e procelas, tantos naufrágios, ouvindo pessoas próximas a discutirem próximas férias, as palavras praia e mar fizeram aportar em mim o espanto e a curiosidade daquele amigo perdido em longínquas ilhas.
 
É estranho. Depois de tanto, desembarca em mim a vontade de esclarecer, também em mim, antigas dúvidas e incertezas.
 
Fui, saído da adolescência, apresentado ao mar, ele me causou muito boa impressão. Acontece que eu estava de passagem pelo litoral, nosso contato não foi além de rápida troca de carícias. Novo encontro demorou tanto que se fez necessária nova apresentação. Alegre, ele tentou logo molhar-me corpo e alma. Era, infelizmente, um dia em que o espírito não estava para brincadeiras. Não houve, pois, novamente, intimidade entre o homem e o mar.
 
Agora me faço questionamentos.
 
Em meio aos porquês, enxergo que nasci e me banhei entre rochas. Vejo que nunca via o líquido sem-fim de céu e mar. O mundo sempre acabava ali, no topo da serra azulada.
Não sei porquês, mas sei que meu coração empedernido poderia encher um mar. No entanto, quando ele chora, o que cai de meus olhos são pedras salgadas.

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