Não sou como eles são

Por: Isabel Fogaça

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Visto-me para o trabalho da maneira mais confortável que as normas permitem. No meio da noite, quando vou usar o banheiro do bar onde faço bico aos finais de semana, encontro duas garotas na fila. Inevitavelmente escuto a conversa de ambas. Elas usam uma quantidade excessiva de salto, batom, e uma colônia doce desconhecida ao meu faro apurado. As garotas conversam sobre o incontrolável impulso de seduzir o namorado da amiga. Não sou como elas são.

Na segunda noite de Carnaval, uma menina muito bonita segura um dos meus braços e pergunta se é do meu desejo ficar com seu colega. Antes mesmo de conhecê-lo respondo que não. Ela, impaciente com a minha resposta, retruca: “Mas porque não?! Ele tem dinheiro!”. Não sou como ela é.
 
Um professor que conheço conta impaciente que não tem amor para exercer sua profissão, e continua por comodismo e pelo dinheiro. A menina “luta” pelos animais mediante a notícia chocante da morte do golfinho por banhistas, mas continua comendo um bife sangrento no almoço. O garoto compartilha uma foto dos Direitos Humanos, mas destrata o garçom. Definitivamente, não sou como eles são.
 
Hoje penso que só não perdi a fé na humanidade porque em situações como estas lembro- me de minha querida avó separando grãos de feijão que são fruto do trabalho de meu avô: os bons ela joga direto na panela de pressão, e os sujos e estragados, minha vó guarda num potinho para posteriormente colocar de volta na terra. As pessoas são como os grãos de feijão: as boas nós levamos para a vida, aprendemos e compartilhamos com elas, e as que não são como nós, não evitamos e damos a oportunidade de serem melhores.

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