Os refugiados

Por: Sônia Machiavelli

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Olho a tela do televisor e minha alma se entristece. A menina de vestido vermelho chora ainda dentro do barco  que chega apinhado à costa mediterrânea. Dele pulam jovens desnorteados, mulheres grávidas, mocinhas de olhos tristes, homens que carregam trouxas molhadas que não sabem onde colocar.  Crianças pequenas sentam-se na areia e transformam em brinquedos o lixo que encontram: garrafas de plástico viram pássaros;  recipientes de isopor, casinhas; um pé de sandália velha, carro; pedaço de papelão envolto em pano, boneca a ser acalentada. Qualquer objeto pontiagudo é lápis para desenhar cenários nos quais sonhar.    

O  repórter pergunta a um adolescente sem camisa de onde ele vem. Responde que é de Homs e a travessia foi muito mais difícil do que havia imaginado. “Fez muito frio e pensei que o barco fosse virar”, diz com olhar perdido. Não requer esforço entender o medo, a ansiedade, as necessidades de todas aquelas pessoas em alto mar, no barco precário.  E quando um jovem casal sai de outro barco com dois meninos pequenos, uma pergunta brota em meu espírito. Que terríveis condições terão enfrentado em sua terra para se decidirem a arriscar suas vidas e- o mais trágico- as de seus próprios filhos numa viagem  cujo destino pode ser a morte? Uma pequena boia improvisada com plástico grosso, anti-moisés irônico, revela que o bebê viajante naufragou.
 
Estamos diante da maior crise humanitária depois da Segunda Guerra. Até agora a contabilidade soma mais de um milhão de refugiados e 4 mil mortos; destes, a maioria mulheres e crianças. Para quem viu a foto divulgada ao mundo há alguns meses, torna-se impossível apagar da memória a imagem do menininho cujo corpo ficou estendido como escultura na areia.  Sua mãe, que o vestira com a melhor roupa, tênis surrado mas meias novas, soçobrou com ele e outros filhos. Só o pai escapou para perguntar diante da câmera do fotógrafo chocado com tudo aquilo: “por quê?”
 
Os porquês nem são muitos, mas todos indiciados pelo risco iminente de perder a vida.  Para fugir das bombas, uma família de Aleppo que contava com oito pessoas  reduziu-se à metade ao chegar à Hungria. Três morreram por desnutrição na Macedônia e um por doença infecciosa na Sérvia. Uma adolescente de Deraa enrolada em cobertor diz que saiu por causa da extrema violência, mas  perdeu os parentes no caminho. A mulher de Damasco que carrega duas mochilas nas costas olha para a jornalista, depois  para o filho, e explica: “Ele vai fazer 17 anos em abril e seria convocado para a guerra”. O estudante de engenharia de Nabak, que de seu só tem a roupa do corpo, cruzou Grécia, Macedônia, Sérvia e Croácia, depois de perder sua grande família num bombardeio: “morreram todos e eu estou procurando um lugar onde possa ter uma vida”.  
 
A maioria dos refugiados é formada por sírios. 90% querem ir para a Alemanha, por isso a rota é sempre a mesma pelo norte.  10%  optam  pelo sul, atravessam a Líbia e, se não morrem no mar, chegam à Itália.  Todos procuram circular pelo Espaço Schengen, formado por 26 Estados-membros da União Europeia que  aboliram o controle de fronteiras internas e emitem vistos. A  chanceler alemã Angela Merkel se sensibilizou com a situação dos refugiados. Isso não quer dizer que seja mais fácil entrar no país ou que a vida se torne menos difícil  do que foi desde que foram obrigados a deixar sua terra.
 
No itinerário desta tragédia que parece não ter fim, os campos mantidos por organismos públicos, ONGs, voluntários da Cruz  Vermelha, religiosos e agnósticos são pontos de espantosa interrogação na paisagem : que mundo é esse de gente que se move expatriada pelo horror da guerra que começou lá atrás, sob o poético nome de Primavera Árabe, e depois se amplificou em fanatismos religiosos mesclados a interesses puramente políticos? 
 
Entre Hungria e Sérvia, e  entre esta e  Croácia,  os coletes verdes dos voluntários sinalizam alguma vida : trazem água potável, pacotes de bolacha, barracas de plástico, macarrão instantâneo, cobertores, remédios básicos. No corredor gigante por onde caminham os refugiados até chegarem  ao ponto onde entrarão nos ônibus que os conduzirão à Alemanha, os microfones dos jornalistas que cobrem o caos captam fragilizadas vozes adultas, choro  infantil, soluços, tosse, muita tosse.
 
Embrulhados em mantas ou folhas térmicas, os refugiados caminham durante a noite e parecem fazer parte de um coro de tragédia grega ao qual se suprimiu a voz. Dos que avançam assim, em grupos cada vez maiores, muitos deixaram parentes e amigos não apenas na Síria, também na  Turquia, no Líbano, na Jordânia, no Iraque. Só nos dois primeiros meses deste 2016 foram mais de 120  mil  os que chegaram à Europa: 112 mil na costa grega;  8 mil na Itália. 413 morreram nas águas do mar.
 
Neste momento em que você lê estas linhas é bem provável que um refugiado esteja se afogando no mar ou morrendo de fome, frio ou sede. E em algum campo ou à beira de uma estrada haverá também uma criança que enche de pedras e plástico um velho tamanco tornado possante caminhão com o qual viaja de volta ao mundo do qual ela nem sabe porque foi expulsa: a sua casa.

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