Discordâncias e Acordâncias

Por: Maria Luiza Salomão

313342

“A maioria das chamadas discordâncias entre as pessoas não são realmente discordâncias, acontecem por elas não olharem para a mesma coisa, não entenderem a maneira através da qual fazem sua procura”.  Money-Kyrle, psicanalista britânico. 

Quando se é jovem, ou imaturo, as discordâncias incomodam. Incomodam a quem quer sempre ter razão, ou a última palavra: sinal de poder.  
 
À medida que amadurecemos, ideias e sentimentos se reconfiguram,  diferente mente. Mesmices são tediosas (quem quer espelho o tempo todo?). Poder é espaço para quem necessita reinar imperioso.  
 
Fortalecida nossa identidade, emerge capacidade serena de encarar o “outro”, o “discordante”, como mensageiro de viés novo de percepção;  ventos novos a arejar o pensar/sentir essencial.  Não é a discordância propriamente dita que incomoda, às vezes, mas uma rigidez de formas de ver/sentir/pensar, que projetamos, consciente ou inconscientemente, no outro. 
 
Não amolaria o coração, não afiaria raiva, se o que chamamos “discordância” não nos tocasse fundo. “Vencer” uma opinião, impor formas de ver/pensar/sentir/agir expressa uma rebelião interna (não contra o outro). Indica conflitos interiores em pugna, que não examinamos acurada mente. 
 
Quase sempre discordamos de nós mesmos. De aspectos abrigados, (in) conscientemente e que nos emburram. Talvez a discordância a afiar raivas aconteça quando estamos zarolhos, olho cego para dentro, a olhar para fora.  
 
Para amadurecer o desejo, a ação, a posição sempre única, quando nos posicionamos como seres pensantes/sentintes/atentos, fundamental perceber se há ressonâncias no modo de escutar, de ver o mundo, sentir o mundo. 
 
Há uma caixa de ressonância interna, onde batucam “eus” estranhos a nos habitar. Não é fácil congregá-los em uníssono. Ainda mais com esse outro, estranho, sinistro, estrangeiro, tantas vezes projetado a partir de dentro.  A cada década vivida, eu me volto para saber o que olho, e de que modo recorto o que quero, preciso, consigo olhar. Sinto tristeza ao constatar que meus óculos não servem a quem quero bem, a quem somaria esforços, em comunhão afetiva, cognitiva, espiritual. 
 
Triste ao perceber que os olhares não convergem para o mesmo ponto, não veem o mesmo objeto (embora o objeto exterior seja o mesmo).  Se a percepção de algo, tipo viajar, digamos, para Paris, pode ser, para o amigo, uma experiência diferente do que é, para mim, viajar para Paris, poupa-se substancial energia. 
 
Não há sintonia se, para o outro, Paris é mostrar aos outros que conhece a cidade que todos conhecem, e, se, para mim, significa conhecer o país em que surgiu – pela primeira vez – na história da humanidade, um bordão que a humanidade ainda não inseriu na história. “Igualdade, Fraternidade, Liberdade”.  
 
O amigo quer ver pontos turísticos, vistos por milhões. Eu, flanar, andar pelas ruas parisienses e encontrar o que não esperava encontrar. 
 
Urge saber, cada um, o que busca ver, seleciona ver, está atento a ver. 
 
É preciso acordâncias para o que sou para mim, para o que és tu, para ti. 
 
Só aí pode ser possível alcançar harmonia, consenso, respeito às diferenças, essas belas palavras.  Do contrário, Narciso impera. 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras