As duas coisas

Por: Isabel Fogaça

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Certa vez disseram que sou metal e que dentro da minha introspecção eu poderia sugar tudo ao meu redor. Outra vez me disseram que vivo parafraseando Rubem Alves quando ele diz que: “amar é ter um pássaro pousado no dedo” porque amo a liberdade e isso nada mais é que coisa de aquariano. Certa vez disseram que sou samurai; introvertida; ansiosa; extremista por ser feminista e vegetariana. E agora eu escrevo como desabafo: não sou nada disso, eu busco ser livre.

Na época em que eu prestava vestibulares, eu sofria por ter que marcar apenas uma opção correta na prova. Lia as questões e me sentia obrigada a dar uma resposta precisa, escrevia nos cantinhos: “Caro avaliador, entendo o que queira o que eu saiba, mas dentro desta pergunta a resposta pode ser A como pode ser B” e ali mesmo eu justificava os motivos. Não sei se chegaram a ler, mas passei em todos vestibulares que prestei. Neste mesmo sentido sinto-me constantemente obrigada a responder se quero açúcar ou adoçante, quente ou frio, pop ou rock, e definitivamente minha resposta é: eu não quero me restringir.
 
Vocês já imaginaram a quantidade de pessoas maravilhosas que deixamos de conhecer por julgamentos precipitados de bom ou mau?! Sempre que ouço alguém falando que fulano é mau, pergunto em voz alta: “Mas o que é ser bom?” porque acredito que devemos esquecer todas as lições que aprendemos sobre interpretações precipitadas de pecados ou comentários fofoqueiros de vizinhos, e depois, se olharmos bem no fundo de nossos próprios umbigos o mesmo que guardam os resquícios de cobertores, bem no fundo, existe um espaço para avaliar o que sobrou de nossa bondade.
 
Deixamos de amar os outros porque estamos presos aos platonismos, ou seja, concepções de amores irreais. Depois que abandonei os beijos de novelas, eliminei muitas das minhas tristezas e diminui meu desprezo; afinal, um grande amor pode durar uma vida como também pode durar um minuto. Eu posso lhe garantir que no peito cabe sempre mais um pouquinho se soubermos lidar com nossos conceitos tirados crus do forno.
 
Portanto, parem de dizer que Maria está gorda, que Ana precisa de um marido, e que Isabel é introspectiva e ansiosa. Podemos ser tantas coisas ao mesmo tempo, exatamente como adoçar uma xícara de café com um pedaço de chocolate amargo e sentir o cheiro das duas coisas dentro do mesmo recipiente. 

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