Tudo muda quando lemos

Por: Sônia Machiavelli

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Depois da fala, o fator civilizatório mais importante para humanos foi o desenvolvimento da escrita. Ela ensejou ao homem guardar a  cultura  de maneira eficiente. Mais ainda, transmiti-la  às gerações seguintes. Com a escrita tornou-se mais fácil expor ideias, compartilhar sentimentos e... registrar para  os contemporâneos e os pósteros relatos que já circulavam oralmente.

O papel, que sucedeu ao pergaminho e ao papiro, foi suporte para letras, ideias e fantasias.  Ele tornou  possível a imprensa. E os livros que são a forma pela qual nos comunicamos até com os que já passaram pelo planeta, nos legando história e estórias. Muitas delas, mais velhas que algumas nações, sobreviveram às culturas onde foram contadas pela primeira vez.
 
Chegados ao século da revolução tecnológica, onde o digital vai substituindo rapidamente o analógico, a palavra escrita continua mais importante do que nunca : no mundo da web as pessoas navegam com palavras e para que alcancem nível razoável de comunicação com o uso adequado da linguagem, precisam estar realmente alfabetizadas.   
 
E a partir do conceito de que alfabetizado é aquele que consegue ler e compreender um texto, a forma mais simples de ter certeza de que alfabetizamos crianças é ensiná-las a ler mostrando  que  essa atividade é prazerosa. Como fazer isso? Encontrando  livros diversos de que elas possam gostar e lhes  facilitando  o acesso deixando que escolham. 
 
As orações  gerundivas do período anterior parecem verdades acacianas, mas há nelas nuances que podem passar despercebidas e impedir o  adulto de despertar na criança o universo extraordinário da leitura prazerosa. “Livros diversos” significa todos os possíveis e outros além daqueles  que o adulto crê que sejam bons; “acesso facilitado”  pressupõe  ausência de entraves burocráticos e total disponibilidade;  “escolha” é liberdade. Conheço professores e pais bem intencionados que sem o querer destroem o amor nascente entre a criança e o livro oferecendo  obras que consideram básicas porque as leram na infância ou títulos importantes segundo critérios muito subjetivos. Diante desta situação  o  pequeno leitor vai se convencer rapidamente de que ler não é coisa legal.
 
Neil Gaiman, criador dos quadrinhos Sandman e de outras obras infanto-juvenis em língua inglesa, costuma dizer que “não existem autores ruins para crianças, se elas gostam e querem ler e buscar, porque cada criança é diferente. Elas podem encontrar as histórias de que precisam e levar a si mesmas para estas histórias. Uma ideia banal e desgastada para um pai não é banal nem desgastada para o filho, se é a primeira vez que este a encontra.  E nem todo mundo tem o mesmo gosto.”
 
Leitura agradável é a que dá prazer; isso parece óbvio. Mas é  essencial que seja compreendido em sua essência. A leitura prazerosa  é aquela que vicia porque desperta o desejo de saber o que estará  escrito na página seguinte, no capítulo seguinte, no episódio seguinte, no volume seguinte, nos  livros seguintes. É um tipo de droga, no melhor dos sentidos, que nos pede cada vez mais.  Se a parte prazerosa do cérebro foi ativada, o hábito de leitura se formará com facilidade e marcará toda a vida do leitor. A criança que sentiu prazer numa leitura, vai querer repeti-lo em outras.
 
Sempre é bom lembrar que ler um livro é diferente de assistir a um filme. Na tela grande ou pequena  vemos coisas acontecendo a outras pessoas. Na prosa de ficção, a partir de 26 letras e alguns sinais de pontuação,  temos de construir com nossa imaginação todo um mundo e povoá-lo através do olhar do autor, que pode ser narrador ou personagem. Sentimentos são despertados, paisagens visitadas, seres muito diferentes de nós se constroem em sua singularidade e nos apresentam à diversidade humana.  Habitamos a ficção enquanto lemos e ao voltarmos ao nosso próprio mundo estamos de alguma forma  transformados. Acontece com todos- adultos e crianças. Eis a grande magia dos livros.
 
Como  Douglas  Adams ( escritor que mirou  premonitoriamente o alcance da Internet e a quem o Google homenageou com um Doodle póstumo),  não acredito que os livros migrarão in totum para as telas. O livro físico é como um tubarão, dizia ele: “Tubarões  são velhos, existiam nos oceanos antes dos dinossauros. E a razão de ainda existirem tubarões é que tubarões são melhores em serem tubarões do que qualquer outra coisa que exista. Livros físicos são tubarões, difíceis de destruir, operam à luz do sol, ficam bem na sua mão; eles são bons em serem livros, e sempre existirá um lugar para eles. Livros pertencem a bibliotecas, lugar que é repositório de informação e permite a cada pessoa acesso ao conhecimento e ao prazer de ler.” 
 
As geladeirotecas são um tipo de  biblioteca criada por mulheres de Franca que amam os livros  e revelam simpatia para com as crianças e com os adultos que essas crianças se tornarão. Sabem  que oferecer livros diferentes de maneira descomplicada é contribuir para escolhas livres que têm a ver com a individualidade. Entendem que uma história contada em voz alta é momento de mágica aproximação e deslumbramento entre os que ouvem e quem conta.  Apostam no poder da linguagem para a comunicação clara dos desejos e necessidades infantis. Creem na força da imaginação capaz de mudar vidas. Cultivam a esperança de tornar mais belas algumas  coisas feias do mundo. Acreditam, pois são leitoras vorazes,  que tudo muda para melhor quando lemos. Elas estão cumprindo um papel que caberia à instância dos governos, qual seja, distribuir livros por compreender o valor da leitura na criação de indivíduos criativos e cidadãos decentes. 
 
Uma vez perguntaram a Einstein como seria possível tornar as crianças mais inteligentes. A resposta dele foi simples e sábia. “ Se vocês querem que as crianças sejam inteligentes”, ele disse, “leiam contos de fada para elas. Se vocês querem que sejam mais inteligentes, leiam mais contos de fadas para elas!” O gênio defendia o valor da leitura e da imaginação. Penso que as mulheres do Projeto  Roda Livro formam-se nesse mesmo entendimento e buscam contribuir para que as crianças francanas tenham oportunidade de ler, imaginar, transformar o mundo à sua volta.  Por isso as cumprimento aqui, nesse sábado de março em que o projeto Roda Livro , cujo objetivo é despertar em crianças e adultos de nossa cidade o prazer de ler, completa seu primeiro ano de existência. Parabéns pela atitude cívica, Rita Moscardini,  Elaise Barbosa, Maria Luiza Salomão, Tânia Liporoni, Regina Bertelli e Solange Borini.

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