Viver não cabe no lattes

Por: Isabel Fogaça

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 “Viver não cabe no Lattes” disse a frase cheirando a tinta fresca na parede de uma das maiores universidades do Brasil. Li aquilo e tentei compreender o sentido que aqueles signos possuíam em minha vida, e resgatei uma conversa que tive com uma professora da faculdade. A prosa iniciou quando perguntei se ela conhecia um de seus colegas acadêmicos e ela respondeu: “Conheço o Lattes dele que é péssimo por sinal.”. Imediatamente forcei meio riso esperando que aquilo não passasse de uma brincadeira de mau gosto, afinal, como alguém pode conhecer verdadeiramente um ser humano diante de seu número de publicações em jornais, livros editados ou artigos reconhecidos?! Infelizmente, a professora estava falando sério, assim como uma grande levada de pessoas que conheci durante a graduação; portanto, é preciso refletir sobre isso.

Tenho que dizer que me assombra pensar no rumo que as coisas estão tomando, e por isso respondi com indignação: “Como assim?” esperando que a professora inventasse uma história como aquelas de estudantes de teatro que mudam todo percurso do que estavam construído, mas não, ela continuou: “Você já viu o Lattes dele?! Ele nem deveria estar na universidade.”. E ao perceber a indignação que eu fazia questão de não ofuscar, ela, felizmente, cessou. Não posso dizer que ensinei algo à professora naquele dia, não consegui falar muitas coisas depois do choque que levei, tive que entrar no exercício de encontro comigo mesma até saturar aquela situação por completo, mas naquela tarde, ela me ensinou algo: a não ser como ela é.
 
O Lattes é um link precioso onde pesquisadores expõem suas vastas produções e este mecanismo possibilita títulos e avanços. Porém, como julgar uma pessoa unicamente pelo  que ela produz? Que terrível seria o planeta Terra se as pessoas fossem tão restritas como seus currículos. Pensando nisso, com alegria, conheci uma pessoa que possui uma vasta publicação, e recentemente ela me convidou para almoçar; apresentou-me ao seu cachorro; contou o que gostava de fazer durante a semana, e eu senti um alívio imensurável por descobrir que existem pessoas de verdade por trás de um currículo.
 
A partir destas duas situações, me remeti à ideia de quando uma criança toma consciência do tempo, um adulto pergunta a ela o que ela quer ser quando crescer,  e ela responde com uma profissão, e será que ser adulto é responder o que é unicamente pelo currículo?! 
 
Hoje saí de casa e ensinei números romanos aos alunos da oitava série de uma escola periférica, a mesma onde ocorre tráfico de drogas no banheiro; a mesma onde meninos de vinte anos estão matriculados em séries do ensino fundamental. Infelizmente, estes alunos não conseguiram aprender o conteúdo na série adequada, e por isso, hoje sofrem dificuldades em compreender a noção temporal quando coloco meia frase na lousa. Como mudar a realidade que muitas pessoas julgam imutável? Faço essa pergunta a mim mesma todos os dias de minha vida, e por isso aplaudo em pé os pesquisadores que estão dentro desta realidade, escrevem no intuito de mudança, e não unicamente pelo prazer de ver uma estrelinha a mais brilhando no currículo. Passei um ano trabalhando de garçonete porque eu precisava me sustentar enquanto pensava num projeto de mestrado que tivesse impacto social, algo que mudasse verdadeiramente a vida dos meus alunos, do meu irmão, e a minha própria vida.
 
Viver na universidade parece ter se tornado uma grande bolha de pessoas cegas procurando mérito por mérito. Às vezes eu tenho a impressão de estar louca com tanto esforço, com tanta busca, e tanta decepção. Então, em algumas noites em que estou sozinha em meu quarto, faço a pergunta: “o que o colega acadêmico da professora é além de seu currículo?” e minha sanidade retorna quando imagino mil respostas além do Lattes.

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