Da Inveja

Por: Maria Luiza Salomão

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Eu me deparei, há tempos, com um texto delicioso, aqui, no Nossas Letras, e o título era Inveja. Um sentimento que ensaio, vez ou outra, escrever sobre. Sentimento espinhoso, que se evita falar, e que ninguém gosta de admitir que sente. 

O texto narrava o encontro de amigas que, de repente, quiseram saber o que invejavam uma da outra.  A conversa frutificou, coisa que acontece se há generosidade, amizade, franqueza: as amigas ficaram ainda mais íntimas, o que demonstrou que eram mulheres maduras e “bem resolvidas” em questões de real importância. 
 
Mas aquilo que rolou na conversa, na descrição da autora da crônica, não era inveja, pelos critérios psicanalíticos.  Os sentimentos ali aflorados caminharam na direção de cumprimentos sinceros, expressando a admiração entrecruzada de todas.
 
“Inveja boa”, às vezes eu escuto, “inveja branca”.  
 
Coisa paradoxal: inveja, em Psicanálise, é sentimento complexo de lidar, nunca é leve e fluido. O senso comum define a inveja como a ambição de querer para si o que o outro tem.  Isso parece mais parente da admiração, e da ambição. Vá lá que seja uma voracidade. Querer tudo, querer muito, boca de jacaré. 
 
O invejoso, para a Psicanálise, é aquele que não quer que o outro tenha aquilo que inveja nele. Quer destruir aquilo que o outro tem, por não suportar sua bem-aventurança. E, muitas vezes, o tiro sai pela culatra: o que o invejoso ataca no “outro” volta, como bumerangue, para si mesmo. 
Sentimento-dinamite! A bomba humana: o invejoso a querer destruir o que supõe não conseguir alcançar. Nada pode prosperar...Machado de Assis disse, numa daquelas suas frases geniais, que os olhos, se tivessem o poder talhante das facas, seriam perfeitos. 
 
O invejoso pode ser o moralista, que se acredita “o” justiceiro. Ele justifica o seu ódio matador, ao se sentir humilhado, no imo do peito, mesmo que seu interlocutor - grupo adversário ou um seu próximo - não tenha essa intenção. O invejoso padece de certezas e de justificativas para seus atos!   
 
Na alma do invejoso, ele se sente despossuído e qualquer coisa pode ser objeto da inveja. No limite, o invejoso quer ser o que jamais se tornará, quer ser aquele a quem inveja. Sofrimento atroz. 
 
O Dicionário Analógico, de Carlos Spitzer, traz palavras associadas à palavra inveja: “raça do inferno, gênio do mal, Satã, fúria, megera, Nero, Átila, rancor, flagelo, peste do gênero humano”; “maus olhos, mau olhado, fulminar com os olhos”; “mostrar os dentes, deitar maldição, raios te partam, desumano, excomungado, com seiscentos diabos, diabos te levem”...
 
No tenebroso grupo de palavras associadas à inveja, há as que se originam de ódios raciais, “má raça”, “monstro”, “víbora” e nem me atrevo a mencionar aquelas que decorrem de ideologias, ou da religião. 
 
É mesmo contra ideias que nos batemos, tão violentamente, uns contra os outros?  
O maior sentimento adversário da vida, disparado, em um possível ranking, é a Inveja. 
Para o invejoso, eu desejo a mais imensa compaixão!  
 
Do lado oposto à inveja, temos sentimentos nobres: generosidade,  bondade, amizade, amor.   
Todos os dias, para me livrar desse mal, eu agradeço o que tenho: a cada graça percebida na minha vida, mais graça vejo no que tenho. 

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