modelagem

Por: Luiz Cruz de Oliveira

314169

Aguço os sentidos. Ouço.

Acontece numa ilhota com muitas pedras.
 
A caneta passeia na asa do vento, mergulha na água, deita-se na areia, sobe e desce montes. Entre outras pedras brutas, opta pela pedra grande presa e solta em canto da ilha. 
 
Pedra bruta.
 
A brisa assovia cantigas na pedra. O ritmo e o som acariciam o corpo da pedra. Partículas dela se desprendem, invisíveis.
 
Contornos chegam.
 
Quando a pedra fica bonita, dela se desprende um pedaço. Depois, outro pedaço também se solta.
 
O azul e o verde infinitos que ilham a ilhota sopram belezas e salinidade nas faces e nos corpos das pedras.
 
Azul, verde, cantigas, algas, sal... moldam as pedras desgarradas. Mas o muito sal vai deformando os contornos da pedra-mãe. Invisivelmente.
 
Um dia, a pedra bruta que se fizera imagem se desmancha em pó.
 
As pedras desgarradas cortam um pedaço de mar, alcançam o continente: ilha repleta de pedras de todas as formas, cujos moldes invisivelmente se alteram pela brisa que sopra, vinda das águas, vinda das serras, vinda do ar.
 
As pedras podem até não escutar. Mas o vento incansável continua sussurrando que os continentes são praias de arquipélago.
 
A voz do vento é nítida. A da caneta, também: a terra é ilhazinha cercada por mares de estrelas, de sóis e de luas, boiando num oceano azul e verde e infinito.
 
Eu, pedra bruta, escuto isso.

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras