Do eterno que transcende

Por: Angela Gasparetto

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Tenho saudades do cheiro de sabão das suas mãos, da energia que emanava dos seus gestos, do branco do seu avental.
 
Tenho saudades do lenço que amarrava na cabeça para lavar nossas roupas na infância, do seu varal imenso e branco, dos seus baldes de água jogados repentinamente no quintal, água s estas que nos faziam gritar de surpresa incontida e correr molhados de alegria.
 
Tenho saudades dos seus doces caseiros, do seu mingau de fubá, da sua indefectível sopa de macarrãozinho parar curar não só enxaqueca, mas todas as dores da alma sofrida.
 
Saudade daquele cheiro de terra batida da nossa casa na fazenda, do chão molhado da cozinha para ficar mais fresco, do ranger das tábuas do assoalho na sala e do seu riso franco, das suas mãos sardentas, dos seus dedos grossos, das suas unhas curtas, do seu dinamismo incansável.
 
Das viagens de ida e da volta. Dos pulos na piscina. Do almoço inesperado. Do vento no cabelo, das sombras das árvores, do balanço daquele lugar.
 
Do vento, do vento, das saudades eternas... Saudades. Saudades dos nossos olhos nos olhos, da nossa piada particular, da cumplicidade de mãe e filha. 
 
Saudades eternas, mas do eterno que transcende o amor e a vida.
 
“Então tudo acabou. Acabaram-se os almoços, o tilintar dos talheres, dos risos não se ouvem mais. Acabou-se! E guardaram-se as panelas, as travessas e as louças novas, estas tampouco não voltam mais! E acabaram as brigas, a alegria também, o falatório e os amigos! Ah, os amigos, poucos restaram! Nunca mais um olhar de espanto cúmplice e de riso incontido! Nunca, nunca mais. Porque mãe só existe uma, como já se dizia algures e dizia-se muito bem!”

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