Onde a realidade supera a ficção

Por: Sônia Machiavelli

314991

Francis Underwood, Frank para a mulher Claire. Sabe quem é? Um senador democrata da Carolina do Sul, protagonista da série House  of Cards, produzida pela Netflix.  Já entrou  na quarta temporada e pode ser acessada pelo serviço de streaming. A série, roteirizada por Beau Willimon, é uma adaptação do romance homônimo escrito por Michael Dobbs.  

 Na cena inicial, Francis (Kevin Spacey) é apresentado ao espectador em  gesto que revela  sua marca: o pragmatismo de resultados. Vendo um cão atropelado e muito ferido,  esgana-o  sem pestanejar, comentando que “há dois tipos de dor: a que te torna mais forte  e a dor inútil, que se reduz a sofrimento; não tenho paciência para inutilidades”.
 
  Outros traços  vão se somando para definir uma trajetória de político que busca o poder a qualquer custo. Indiferente à dor alheia, ambicioso num nível doentio, implacável com quem representa algum impedimento no seu caminho, focado em objetivos, ele não aceita derrotas.  Ao tomar conhecimento de que foi preterido numa escolha para secretário de Estado do recém-eleito presidente da República, disfarça a raiva e a transforma num combustível que vai alimentar sua jornada em busca de fortalecimento dentro do governo. Seu alvo é o topo do poder político, o que vai conquistar depois de inúmeras ações abjetas, imorais, criminosas, perpetradas de forma hipócrita, traiçoeira, cínica.  Sua inspiração é a cadeia alimentar. Seu mote, três frases absolutas:    “Não pode haver misericórdia. Só há uma regra. Cace ou seja caçado”.
 
Claire (Robin  Wright) dirige uma ONG chamada Iniciativa por Água Limpa, cujos objetivos não se tornam claros em nenhum momento. Ela parece usar a organização para cultivar poder e influência e, embora diga que a mesma é bem sucedida, seu impacto não é expressivo. Desejando alcançar notoriedade internacional, muda seu foco para a criação de poços no estrangeiro, opção recebida com desconfiança por seus colaboradores. Sua resposta é rápida: numa manhã pede à primeira funcionária que demita metade da equipe, e no final do dia demite a própria. 
 
Estes perfis assim delineados no início vão se complexando à medida que a série evolui, o casal se aproxima do Salão Oval da Casa Branca,  os frutos do poder vão marcando o cotidiano.  A campanha de Frank é eletrizante, quer pela agilidade dos episódios, quer por atualizar temas que estão no noticiário (como os problemas com China e Rússia e a campanha eleitoral 2016 para a Presidência dos EUA), quer pelas frases aforísticas que revelam de forma clara uma maneira imoral de fazer política: “  A estrada para o poder é pavimentada por hipocrisia  e por baixas; nunca por remorsos”.
 
A série é caracterizada por excelente trabalho de direção, montagem, roteiro, com direito a diálogos inteligentes e frases de efeito impactantes, colocadas na boca de Francis para marcar uma das singularidades da obra, a quebra da quarta parede, quando o personagem fala diretamente ao espectador, num artifício teatral de grande efeito: “ Amigos se transformam nos piores inimigos”. “Cumprimente com a mão direita, mas segure uma pedra com a esquerda”. “Nenhum político consegue resistir a fazer promessas que ele não poderá cumprir.” E a muito repetida ao longo dos episódios: “Se você não gosta de como a mesa está posta, vire a mesa”. 
O realismo do enredo de House of Cards tem levado jornalistas, críticos, comentaristas, internautas a uma associação da série com o cenário político brasileiro. Assim como o espectador se surpreende  a cada episódio da série, que apresenta sucessivos lances inesperados, também na atual cena política brasileira a  sequência de fatos é tão avassaladora que mal a população se dá conta de um, é instada a olhar para outro, num único dia.
 
O próprio Netflix pegou carona nas similitudes e no dia em que Lula da Silva foi conduzido coercitivamente pela Polícia Federal para depor numa sala no aeroporto de Congonhas, reforçou o marketing  da quarta temporada que estreava no já histórico  4 de março. Uma carta de Francis Underwood endereçada ao povo brasileiro foi visualizada e compartilhada por milhares no Facebook. Interagindo com os internautas, o canal mesclou notícias reais sobre os fatos políticos do Brasil com os personagens da história. Comentando a cobertura da imprensa brasileira sobre Frank, o texto registrava que “à parte tudo o que a mídia pode dizer, existem também os fatos alegados pelo próprio presidente: sua campanha é completamente limpa, honesta e legal. Francis J. Underwood nunca prejudicou ninguém para chegar à Presidência e jamais faria isso para continuar nela.”
 
Ao lado desta ação, também foi feita uma parceria de mídia com duas das principais revistas de cobertura política no Brasil- Veja e Carta Capital, e dois jornais de grande circulação- Zero Hora, no Rio Grande do Sul, e  O Povo, no Ceará. Todos publicaram capas falsas, com diagramação parecida com a  real, simulando reportagens sobre Francis e Claire. 
Desde aquele dia outros complicadores adensaram o cenário em que vamos vivendo no mar revolto chamado Brasil, sem remo e sem rumo, reféns de políticos esdrúxulos como uma presidente disléxica e incompetente que não sabe se comunicar nem governar;  um ex-presidente acusado de crime que é presenteado com convite para ministério 72 horas depois de  execrado nas ruas por milhões de brasileiros; um parlamentar que mandou milhões de dólares em propinas para contas na Suíça - e mesmo assim continua no cargo de presidente da Câmara dos Deputados! Perto deles Francis  quase vira anjo, até porque se é viciado em poder, não é viciado em roubo. E sua linguagem é elegante, mesmo na intimidade; ele jamais chega aos níveis do obsceno e do sexista.
 
Quanto a Claire nunca mandaria  seus opositores  enfiarem  algum protesto no c....
 
Beau Willimon, o roteirista, e Michael Dobbs, o romancista, deveriam voltar os olhos para o Brasil e ver como aqui, onde o sistema político está falido  e gravações de conversas telefônicas desvelam a ética que permeia os que nos governam, a  realidade supera a mais espantosa ficção. 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras