A pressa é inimiga da direção

Por: Maria Luiza Salomão

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A frase acima está em um cartaz luminoso, na Marginal Pinheiros, em São Paulo. Clarice Lispector lapidou uma, metafórica dizendo: mais importante do que se apressar é saber para onde vamos. 

Vejo gentes ansiosas demais para agir, executar, colocar em prática ideias. É só esperar um pouco e observar que a energia posta em movimento pode resultar em...nada. Ou torcer para que não resulte o contrário do ambicionado.
 
Pensar está fora de moda. Incomoda gentes agitadas e ansiosas.  Há tanto o que fazer, que, muitas vezes, esquecemos de apenas ser. 
 
Ser - estar em si mesmo, usufruir da própria sabedoria de viver, exige tempos e esperas. Ser- estar no tempo e no espaço exige atenção e concentração.  As crianças estão aprendendo rápido a fazer, a agir, a “vencer” tarefas, em velocidade cognitiva constantemente desafiada, continuadamente, pelas máquinas, pelos celulares, pelos computadores, por uma pressa dos adultos, pressão, e para quê? Em que direção?
 
E os sentimentos? 
 
Comparo os sentimentos, há tempos, com os paquidermes, com os dinossauros, seres que nos habitam, de tempos longevos da história da humanidade. 
 
Mudar uma mentalidade é coisa paquidérmica, dinossáurica!  Uma análise pessoal
transformadora demanda tempos, esperas, reflexões. Por conta dos sentimentos! Transformar uma maneira de ver um mundo (se há graves conflitos internos) demanda uma escalada difícil, mergulhos profundos.  Conhecer um pantanal: sentimentos se emaranham no dentro da alma, compõem e inauguram recantos da alma, e nos levam, por vezes, a galope por pradarias desconhecidas e florestas misteriosas. 
 
Não gosto de usar o termo paciência, porque esta palavra é temperada com resquícios de outras: “submissão”, “repressão”, “acomodação”.  Enfim, paciência é coisa que não adianta pedir aos muito ansiosos, ou aos que querem arrogantemente mudar o mundo (não o deles, claro!) do dia para a noite. 
 
É preciso coragem para efetuar mudanças. Coragem de olhar as âncoras que nos prendem a portos que precisamos abandonar se quisermos descobrir novos mundos.
 
O que são âncoras? 
 
Cada um tem a sua: inveja (a mirar na destruição do outro, mais do que na construção de si mesmo); ciúmes paranóicos; competição sem limites; ressentimentos (esse verdadeiro câncer psíquico); nostálgicas pedras do passado; ódio ao que desarruma os dogmas que não percebemos que carregamos desde bebês e que nos leva a perceber o mundo através (e unicamente) através deles. Dogmas: crenças férreas de que as coisas são como me parecem ser, não como elas efetivamente são. 
 
São tantas as âncoras... há que trabalhar para içá-las, e consultar os ventos, e confiar na bússola. 
 
Na pressa, esquecemos da bússola. Qual é a bússola? 
 
 - Os sentimentos, que nos ancoram e nos sustentam; que nos impulsionam e são obstáculos; que nos acompanham como anjos do Bem e do Mal, e que sentimos um vazio enorme quando nos vemos deles despojados. 
 
Há gente de olhos vazios, mãos vazias, coração vazio, alma esvaziada, sem perceber o dreno instalado, em algum momento, em meio a angústias e ansiedades, sem perceber que, descuidadamente, virou zumbi.   

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