O eterno dentro do mundo das coisas duráveis

Por: Isabel Fogaça

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“Alice: Quanto tempo dura o eterno?
Coelho: Às vezes apenas um segundo.” 

Tem algo mais clichê que tatuagem do símbolo do infinito, no pulso? A mágica de acreditar que algo pode ter uma duração que ultrapassa a carcaça de um corpo perecível é animadora. Sou apaixonada por esta ideia desde a primeira vez que ouvi meu pai dizer que os números eram infinitos. Como pode uma determinada coisa ser infindável dentro de um mundo de mortais? Romantizar algo frio é maravilhoso, e é por isso que nossas emoções tornam a vida mais gostosa de viver.
 
Tenho facilidade em pensar em coisas que são eternas dentro de minha existência, mediante a intensidade que senti. Afinal, o eterno nada tem a ver com o tempo das sensações, e sim com a intensidade com que elas  foram absorvidas por nós. Meu espírito boêmio, por exemplo, já me proporcionou amores de uma noite que pela manhã haviam tornado poeira de apagador de professor. Consigo pensar, também, no carinho que sinto pelos meus avós; o sentimento de quando fiz uma tatuagem com meu pai; e até mesmo no pôr do sol de Franca.
 
Miro meus olhos na luz que pisca sinalizando onde tenho que direcionar o controle remoto caso queira ligar a televisão; logo, aquela luz vermelha torna-se um joguinho mental dentro da minha insônia; a sensação do eterno mora ali na possibilidade de nunca conseguir dormir, e de repente, acordo no dia seguinte. Talvez o colo quente da morte tenha a mesma imprevisibilidade, e por isso culpo minha existência quando olho os passos que dei e hoje quase desmancharam na areia da vida, penso que poderia ter sido muito mais intensa em algumas de minhas escolhas. 
 
Porém, desde que minha tia querida alçou voo da Terra, tenho tentado viver por nós com muito mais intensidade. Na verdade, a minha atual vontade de viver pode ser comparada com uma garrafa de vinho tinto que tenho vontade de beber cada gota. Amo estar aqui, e delicio-me com as ilusões do que pode ser eterno: um beijo numa festa de formatura; um frio na barriga; uma noite mal dormida. E a vida continua. Frida e Diego; o sorriso do menino que brinca na rua; o cigarro do boêmio que tenta apagar a dor de um coração quebrado. Um segundo, ou cem anos, tudo depende da intensidade de quem sente. 

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