Babilônia

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

314998

No distrito de Babilônia, interior de Minas Gerais, em vicejantes terras banhadas pelo Rio Grande, o transporte de cargas era difícil, na maioria  das vezes feito em lombo de burros, os únicos que conseguiam transpor as precárias e íngremes estradas daqueles tempos. Eram valiosos e disputados. Cabia ao jovem Joaninha, criado pelo coronel como filho, os cuidados com esses animais, o que fazia com muito zelo. Estando uma tropa deles amarrada aos moirões da fazenda, pronta para uma viagem cargueira, à espera dos tropeiros, ladrões de vida incerta e errante, rapidamente os soltaram e iniciaram um galope levando-os para bem longe, esquecendo-se, porém, que deixavam rastros pelos caminhos. O cansaço os fez parar para pernoitar, quando foram surpreendidos pelos tiros, disparados pelo filho do coronel, por Joaninha e empregados que saíram, imediatamente, ao encalço deles. Um dos larápios foi atingido, mortalmente, enquanto os outros fugiam, abandonando os animais. O jovem fazendeiro voltou triunfante à fazenda com a tropa recuperada. Mais tarde, o delegado do distrito procurou o coronel, comunicando-lhe a morte de um homem e perguntando quem atirara nele. Há discordâncias sobre se o jovem Joaninha fora acusado injustamente ou se, talvez, tenha se entregado para inocentar o filho do patrão, com quem convivera desde a infância, mas o fato é que foi detido e condenado a cumprir vinte anos de prisão. Deixou a noiva inconsolável e partiu. Levou apenas uma foto da jovem sorridente e bela que o acompanharia por toda vida. Dalvinha lamentou por muito tempo sua triste sorte, até que aceitou o amparo de um outro homem com quem se casou.

A vida não é estática. O tempo passou, seu marido ficou doente e faleceu. Quando Joaninha, finalmente, deixou a prisão, trazia em sua mão a foto de Dalvinha cuja imagem havia gravado em seu coração. Não se importou quando a viu, muito diferente, com as marcas indeléveis do tempo em sua face. O seu conceito sobre ela não mudara. Para ele, era a mesma jovem que deixara para cumprir seu destino. Durante o tempo de aprisionamento examinou sua vida, refletiu sobre a condição humana e o que era relevante na vida de um homem.  Livre, pediu-lhe  em casamento.

Concluiu que ainda havia tempo para serem felizes. A vida se oferecia para ser vivida. Não era tarde. O amor deles permanecia o mesmo. Enquanto houver um coração para amar ou umas palavras amorosas para dizer, vale a pena tentar.                                                   

                                           
                                     

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras