Carta

Por: Lúcia Helena Maniglia Brigagão

316369

Dos antepassados não herdei moedas valiosas, arca com dinheiro ou propriedades. A avó materna, porém,  deixou-me o que considero tesouro: arca de couro e tachas, abarrotada com mensagens, fotos, poesias, mimos, lembranças. Dentre tais riquezas, destaque para a folha de papel tipo almaço, verde claro, cheio de manchas do tempo, com marca d’ água, indicação da sua origem, gramatura alta, próprio para escrever. O texto é intrigante.  A letra, maravilhosa, sugere anos de treino caligráfico com bico de pena, tinteiro e mata-borrão.  O título – A Bodarrada – remeteu de início aos membros da maçonaria. Parecia-me.  Não está assinado, traz local e data de quando foi transcrito: Uberabinha, 10 de dezembro de 1895. Não pode ser considerado  palimpsesto, pois sem chance de ser reutilizado.  Todavia não deixa de ser documento importante para a família: pertencia ao bisavô Grão-Mestre da primeira Loja Maçônica de Uberlândia,  de nome Francisco Emílio de Araújo, dono do cartório, amante das cartas e dos jogos de azar, razão pela qual perdeu a fortuna e não deixou herança. A tradução da primeira parte do texto, deixo a critério do leitor, caso esteja interessado. Porém as partes seguintes, nas outras páginas,  traz o seguinte: “Entre a brava militância, fulge brilha alta bodança. Guardas, cabos e furriéis, brigadeiros e coronéis, destemidos marechais, rutilantes generais, capitães de mar e terra – tudo marra, tudo berra. Na suprema eternidade onde habita a divindade, bodes há santificados que por nós são adorados. Entre o coro dos anjinhos, também há muitos bodinhos.  O amante de Syringa tinha pêlo e má catinga; o deus Mendes, pelas costas, na cabeça tinha pontas; Jove, quando foi menino, chupitou leite caprino. Nos domínios de Plutão, guarda um bode o Alcorão; nos lundus e nas modinhas, são cantadas as bodinhas: pois se todos têm rabicho, para que tanto capricho? Haja paz, haja alegria, folgue e brinque a bodaria. Cesse pois a matinada, porque tudo é bodarrada!” Os modernos tempos de Google se encarregam de dirimir dúvidas. Anos tentando entender o que estava escrito, lembrei-me de procurar na internet e bingo! Mais que a tradução, soube que o autor dos versos é  Luiz Gama, o poema faz parte das “Primeiras Trovas Burlescas” e não, ele não se refere à maçonaria, mas  seria espécie de resposta do poeta às agressões da sociedade racista que chamava os negros de “bodes”por causa do suposto odor que proviria  deles. 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras