Livro de cabeceira

Por: Sônia Machiavelli

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“A palavra é metade de quem a fala e metade de quem a ouve”. “Só os loucos têm certezas e não mudam de opinião.” “Não existe conversa mais tediosa do que aquela onde todos concordam”. “A morte é de fato o fim, mas não a finalidade da vida.”  “O arqueiro que ultrapassa o alvo falha tanto quanto aquele que não o alcança.” “Não há paixão que mais abale a sinceridade dos juízos que a cólera.”

Cada uma dessas frases poderia ser atribuída a um contemporâneo. Elas são atuais; falam de comportamentos que caracterizam humanos de qualquer tempo; expressam verdades universais. No entanto, datam do século XVI. Foram algumas das escritas por Michel de Montaigne (1533- 1592), o criador de um novo gênero literário, os Ensaios, espelhos de uma visão de mundo que apura o mais genuíno sentido da Renascença, aquele que coloca o homem no centro de todas as coisas. Montaigne construiu sua obra lentamente, depois de ter lido muito, viajado bastante, vivido com intensidade, acumulado vasta experiência. 
 
Tendo exercido por quatro anos o cargo de prefeito de Bordeaux, abandonou a função numa hora em que a França estava dilacerada pelas guerras de religião. Como espírito moderado, tornou-se suspeito aos dois lados e preferiu refugiar-se na sua “torre”, um castelo que transformou em biblioteca e para o qual se mudou definitivamente aos 34 anos. Ali passou a organizar o que já havia escrito e continuou a registrar seus pensamentos até o fim. Os Ensaios compreendem três volumes. O primeiro  foi publicado em 1580; o segundo em 1588; o terceiro, póstumo, saiu em 1595. 
 
Não se conhece em nenhum lugar uma biblioteca como a de Montaigne. Além dos livros que reuniu formando um acervo precioso de obras clássicas, este pensador considerado o pai de uma estirpe de ensaístas ilustres, mandou pintar nas paredes e nas vigas da construção muitas frases de autores gregos e latinos, algumas de sua autoria, outras bíblicas. Impregnou o espaço físico com  filosofia, literatura, reflexões. Adornou-o com souvenires delicados de regiões visitadas, mas também com  objetos rústicos dos índios tupinambás,  apresentados à Corte de Carlos IX  em Rouen, em 1562, por Villegaignon, o fundador no Brasil da fracassada França Antártica.  Montaigne fazia parte da comitiva do rei que tinha apenas 12 anos. 
 
 Este foi um acontecimento  que muito o impressionou, levando-o a escrever varias vezes a respeito. Sobre tal encontro de culturas que a maioria definiu como oposição entre civilizados e selvagens, cunhou a frase : “Cada qual considera bárbaro o que não se aplica em sua terra.” Em seu ensaio Dos Canibais, que se  tornou emblemático de uma maneira de avaliar o outro sem preconceitos, Montaigne revela grande interesse pelas culturas ditas primitivas. Primeiro humanista a defender os nativos das Américas, contraditou a fala dos exploradores, segundo a qual os indígenas estavam mais próximos dos animais que dos seres humanos.  Desconstruiu a argumentação dos europeus, demonstrando que ela constituía uma desculpa para legitimar o genocídio de milhões. Hoje o discurso é comum; pensar nas posições assumidas por Montaigne a menos de setenta anos da descoberta da América, é que foi surpreendente. 
 
Admirável também é o fato de ter construído uma obra onde falando de suas experiências e emoções, acabou  perfilando o ser humano, a partir da premissa de que todo indivíduo carrega consigo a marca da sua humana condição. E se todos os homens estão sujeitos a determinados limites, os limites não são os mesmos para todos. Montaigne está sempre nos lembrando que cada um de nós possui a sua natureza, que se encontra no fundo da alma, na maneira de sentir, na condição de agir, no timbre de voz, na cor da pele, no ritmo do andar. Montaigne proclama o respeito à personalidade integral (e integrada),  à totalidade do ser humano - um dos pontos capitais das teorias psicanalíticas, de que ele pode ser considerado o mais remoto precursor. 
 
Há um momento em que escreve, assustando os humanistas: “É realmente o homem a criatura superior que se imagina? O que sabemos de nós, da vida, do mundo, por meio da razão, sem a intervenção da fé?” A resposta não será afirmativa nem negativa, pois tudo, como diz,  lhe parece falho, incerto, sujeito a controvérsias. Nem mesmo sabemos se somos superiores aos animais: “É um convencimento da vaidade humana decidir sobre tais seres que nunca se comunicam exatamente conosco e cujo íntimo ninguém pode penetrar.”   Registra: “Nada sabemos”. Mas considerando que essa seria também uma afirmação ousada por presumir demais,  lança sua frase definidora: “Que sabemos nós?”
 
Se fôssemos escolher as palavras-chaves para definir a obra deste imenso pensador, seriam elas tolerância, compreensão, flexibilidade. E se o termo resiliência já tivesse sido criado, ele o usaria com certeza para expressar a capacidade humana de manter a integridade adequando-se às circunstãncias. Afinal, como ele mesmo diria ao se autoanalisar em um de seus últimos ensaios, “Não retrato o ser. Retrato a passagem.”
 
Dia desses me perguntaram qual era o meu livro de cabeceira, expressão antiga  mas ainda pertinente para definir a quem recorremos enquanto leitores, nos momentos em que certas inquietações  nos assolam e assombram.  Respondi sem pestanejar: “ Os Ensaios de Montaigne”. Porque com seu agudo ceticismo, admirável  introspecção e genuína humildade, Montaigne se parece ao amigo amoroso a quem a gente pode recorrer em busca de luz quando baixam as trevas da ignorância.  

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