Barraqueiros

Por: Maria Luiza Salomão

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Uso poucas gírias. Uma, mais frequente, é “barraqueiro”.  

Adoro feiras de comidas, os gritos de: “quer provar, dona Maria?” “Leve cinco e pague três”. Os barraqueiros oferecem descontos, gritam, não deixam a gente pensar, são divertidos, sedutores, criativos.  Barulhentos. Enganadores e pragmáticos.  Feira é um microcosmos!
 
Quando se diz, coloquialmente, que alguém é “barraqueiro”, ou quer “armar um barraco” (sentido figurado), significa que a pessoa quer confusão; é pessoa sem trato (e tato) para dizer calmamente algo; impulsiva; não aceita contrariedades.  Barraqueiro é facilmente irritável; “mal educado”. Em inglês, poderia substituir barraqueiro pelo antônimo,  que meu irmão gostava: sem fair play, não joga limpo, não tem espírito esportivo. 
 
O sentido figurado para barraqueiro vem de Moçambique: o que faz escândalos, dá vexames, desordeiro. Barraqueiros, nesse sentido,sempre têm razão! O escândalo que armam intimida, calam a voz dissonante; vencem pela força e/ou ameaça de! 
 
Ordem e harmonia dependem de uma capacidade de espera, de trabalho físico,psíquico, e espiritual.  De uma capacidade para circunscrever tempos e espaços para amadurecer decisões e ideias. Fácil harmonizar afinidades.  Difícil enfrentar o “barraco”, turbulência, frustrações, mistura heterogênea de interesses. Todos temos um “barraco” interno, “muitos eus” em conflito permanente.
 
O psíquico demanda trabalho para o barraco conter ódio, ansiedade, angústia, inveja, ciúme, terror, medo.  Conter não é reprimir, nem engolir goela abaixo: é (re) conhecer o que a experiência de emoção intensa evoca.
 
Re-conhecer não é intelectualizar, nem racionalizar: é a busca do centro vital, do vértice que me situa. Ao me definir no tempo,e na sua duração, o (re) conhecimento tenta assimilar o efeito da intensidade da experiência emocional do momento...   
 
Harmonia se conquista em meios hostis, não favoráveis. É na turbulência que se sabe da verdade íntima. É no contraditório que se mede o valor da pessoa, pelas escolhas que faz. De nada serve “bode expiatório”. Caráter é  testado no olho do furacão.
 
O mundo não é harmônico.  
 
A alma vive armando e desarmando barracos.  Se minha vida mental deve estar atenta às circunstâncias sempre mutáveis da vida (interior e exterior), é preciso delicadeza no armar e desarmar barracos. Há sempre risco no convívio de diferentes barraqueiros.  
 
Atenção aos sinais. Prontidão para não sucumbir aos predadores, nativos e estrangeiros, e eventuais. Fair play para poder contar com outros barraqueiros.
 
Ser um barraqueiro a armar e amar seu barraco, desarmá-lo com  fair play, jogando justo, para que a feira permaneça plural. 
 
(Acho que criei outro significado para barraqueiro. Ooops). 

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