Por onde anda?

Por: Isabel Fogaça

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Por onde anda G.? Que bocas ele beija? Onde ele passa suas melhores noites? Onde trabalha? Como vive? G. me amou verdadeiramente, me entregou cartas, orquídeas, e uma pizza de shiitake no meio do mês de agosto. E, agora pergunto: por onde andas?

O cheiro de seu corpo é composto de uma essência cítrica que poucas vezes senti junto do perfume do sabonete e do odor natural de sua pele. Após sua partida, meu faro procura seu corpo quando um cheiro semelhante passa por mim nas vielas da cidade. Seu hálito tinha gosto de creme dental com Witbier belga. Seu corpo era largo cotidianamente encapado por roupas elegantes. Era um bom advogado, gostava de ouvir, e lembrava-se de coisas que eu havia falado anos atrás.
 
Cruzamos nossas pernas por baixo de uma mesa de bar, tomamos cerveja barata, e rimos dos hábitos alimentares da moça malhada da academia. Dormimos, sonhamos, ele cogitou largar tudo e trabalhar de garçom comigo. Cruzamos nossos dedos no entardecer, observamos o pôr do sol mais bonito do mês, eu até escrevi para ele, éramos bons amantes.
 
Porém, seu olhar com angústia me perguntava se eu o amava, meu peito angustiado calava a minha boca, talvez pelo medo do novo, talvez por essa mania de não deixar que ninguém faça parte de mim, mas o amei por um mês inteiro. E ele não entendeu, vi seus textos estampados no jornal onde ele dizia sobre um amor não correspondido e a derradeira vontade de seguir em frente. Eu, calada, lia tudo com admiração, tristeza e com a camiseta suada.
 
Observei ele ir embora, vi que continuou colecionando moedas; assistindo jogos de futebol; escrevendo coisas maravilhosas. Vi, também, que se apaixonou novamente de um jeito que me colocou em dúvida já que havia prometido não gostar de mais ninguém assim, como a gente se gostou. Prometeu em segredo, no brilho dos olhos, no tocar da língua, na vontade de escrever um poema, na entrega de sua última carta. 
 
Onde está G.? Para onde vão as pessoas que nos amam verdadeiramente? E onde elas enfiam tanto amor para poder seguir como se nunca tivesse existido?
 

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